domingo, 18 de janeiro de 2026

As feministas tomaram parte ativa na ascensão do regime teocrático dos Aiatolás

 



Poderíamos traçar o feminismo desde sua origem, compilando um por um os marcos fundamentais pelos quais a geração posterior de feministas constrói a sua retórica, apoiando-se ou confrontando na antecedente. A sua citação é possível, sim, mas a expansão com comentários suplementares ficará para depois, uma vez que a exposição minuciosa das ideias centrais desses documentos está fora do escopo neste exato momento.

Em paralelo ao contexto revolucionário francês do século XVIII, temos a publicação da obra Reivindicação dos direitos da mulher (1792), por Mary Wollstonecraft, ao lado do ativismo de Olympe de Gouges que visava estender às mulheres os valores encampados pelos revolucionários.

Com reveses, de maneira gradual, o caldo feminista vinha sendo encorpado desde então, mas o seu caráter é de rebelião contra a figura de autoridade, casando com os propósitos das revoluções. A Revolução Francesa deu o pontapé inicial para futuras quebras das estruturas sociais, foi um ensaio para as subsequentes revoluções e sempre gerou entusiasmo em Vladimir Lênin.

Passando ao século seguinte, houve a Convenção de Seneca Falls (1848), por Elizabeth Stanton e Lucracia Mott, que reuniu um grupo minoritário de homens com uma maioria feminina, a fim de emitir uma Declaração, que pugnava pela extensão de direitos às mulheres norte-americanas, fazendo um paralelo com a declaração de independência.

Em 1884 eis que surge uma base fundamental para o feminismo e a questão de gênero, “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” de Friedrich Engels, com alguns apontamentos reunidos por ele, escritos pelo então falecido Karl Marx. Essa obra é responsável por conferir às relações entre homens e mulheres a tônica de luta de classes, que persistirá até os dias atuais como patrimônio comum do movimento revolucionário.

Engles escreveu que:

Em um antigo manuscrito inédito, elaborado por Marx e por mim em 1846, encontro o seguinte: “A primeira divisão do trabalho foi a que ocorreu entre homem e mulher visando à geração de filhos”. E hoje posso acrescentar: o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher no casamento monogâmico, e a primeira opressão de classe coincide com a do sexo feminino pelo sexo masculino[1]. (grifos nossos)

 

Seguiu-se uma série de etapas. Em primeiro lugar, não se colocaram contra a religião, apenas buscaram reconfigurá-la (Seneca Falls ocorreu em âmbito protestante, numa Igreja Wesleyana).  Com a maturação da questão, desprendeu-se completamente das amarras sociais e não mais sentiu a necessidade de pagar tributo aos valores tradicionais, passando à negação ativa, ao trabalho crítico continuado por nomes como Beauvoir, Betty Friedan, Margaret Sangers, Kate Millet, Solanas, Judith Butler, dentre outros integrantes do hospício da pseudociência que funciona como motor do fenômeno revolucionário. As feministas atacam a religião em duas frentes simultâneas: primeiro, enxertando conteúdo herético e conspurcando conceitos religiosos (exemplo: estudos de ideólogos questionando se o conceito de Deus é masculino, etc..); em segundo plano, classificando a religião cristã como produto paternalista que serve aos interesses de uma sociedade machista.

No primeiro volume de sua obra “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir dissertará sobre a associação do feminismo com o socialismo, asseverando que:

 

O feminismo revolucionário reata com a tradição saint-simoniana e marxista; (...) Em 1879, o congresso socialista proclamou a igualdade dos sexos e, desde então, a aliança feminismo-socialismo nunca mais foi denunciada, porquanto é da emancipação dos trabalhadores em geral que as mulheres esperam a liberdade, não se prendendo senão de um modo secundário à sua própria causa[2].

 

Essas questões, que num primeiro momento nos parecem teóricas, podem ser complementadas com um evento ativista do campo esquerdista ocorrido pouco mais de um mês atrás. 

Em 7 de dezembro de 2025 houve um ato na Avenida Paulista contra o feminicídio, a principal organização responsável foi o Movimento Nacional Mulheres Vivas (também chamado de Levante Mulheres Vivas). Usando de seu poder de mobilização de grupos sociais à frente da guerra cultural, esse ato foi repercutido em diversos estados da federação.

A política psolista Sonia Guajajara, atual ministra dos povos indígenas, escreveu: “O ato na Av. Paulista deu o recado: mulheres vivas! Hoje estive no ato em Brasília, mas não pude deixar de acompanhar as imagens de São Paulo. Uma sociedade que se cala em relação à violência contra a mulher jamais poderá avançar. Pelo Brasil inteiro, vamos juntas![3]

Navegando no delírio de que haveria um extermínio de mulheres no País somente pelo fato de serem mulheres, o ato reuniu agentes políticos como Erika Hilton (PSOL-SP), Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e Luciene Cavalcante (PSOL-SP).

A CUT (Central Única dos Trabalhadores)[4] também esteve presente na manifestação, divulgando em suas redes sociais as cidades e os respectivos horários.

Influenciadores de esquerda, como a celebridade Luísa Sonza também marcaram presença no evento, que embora não tivesse caráter partidário expresso, nem por isso deixou menos evidente em qual espectro da política se encontrava, havendo gritos de oposição ao tal do bolsonarismo.

Os esquerdistas que fogem da linha e apresentam comportamento, aos outros tidos como machistas, são denunciados como esquerdomachos, e seu comportamento desviante é objeto de censura e zombaria por parte da própria bolha de militantes.

Podem apontar o quanto quiserem para tais ou quais medidas feministas aprovadas em governos com viés direitista, o feminismo continuará com o seu DNA esquerdista e figurará na condição de força política acoplada aos projetos revolucionários. O coletivo feminista que organizou essa manifestação opõe-se a governos tachados de conservadores, como o de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), acusado de reduzir verbas para delegacias da mulher e negar proteção policial ao ato[5].

Ao lado da entidade principal que coordenou o evento, várias outras estiveram presentes. Não houve presença de entidades vinculadas à direita, o que foi traduzido pelos órgãos de propaganda como a baixa preocupação pelo bem estar das mulheres por parte dos direitistas, reforçando a imagem de misoginia e desprezo à condição feminina.

Dito isso, o movimento feminista é politicamente organizado e ideologicamente orientado em vistas dos objetivos práticos das forças políticas às quais ele se encontra vinculado. No caso da revolução iraniana de 1979, várias entrevistas e fontes de participantes daquela agitação política atestam como as frentes progressistas foram fundamentais para a ascensão do atual regime, inclusive frentes feministas. Sim, as feministas fizeram parte ativa do esforço conjugado que possibilitou a ascensão do Aiatolá.

Chahla Chafiq[6] era uma feminista iraniana que apoiou a derrubada do Xá em 1979, depois teve que viver exilada na França. Em uma entrevista, ela relata que existiam vários grupos discretos e, quando a revolução aconteceu, eles vieram à tona. Nesse contexto, antes do estabelecimento total do regime, ela havia integrado “um círculo de marxistas-leninistas e (...) uma organização estudantil de esquerda”.

Quanto aos agrupamentos revolucionários, havia os Tudeh, de viés pró-soviético; os Fedayeen, também pró-soviéticos, porém com simpatias cubanas mais acentuadas; os Line Three (Linha Três), esquerda independente; por fim, os Mujahedin, esquerda islâmica.

No fim das contas, os grupos revolucionários passaram a apoiar os religiosos teocráticos, enxergando neles uma corrente “anti-imperialista”.

Obtido o poder, as revoluções precisam promover o alinhamento e daí se segue um período de expurgos, com a consolidação da corrente revolucionária prevalente, todos os demais grupos de esquerda que a auxiliaram passam a ser alvos e subjugados pelo partido dominante. Isso aconteceu na França, na Rússia, na China, na Nicarágua, etc...

Enquanto Khomeini retornava do exílio e montava a estrutura autocrática de censura, os grupos esquerdistas que auxiliaram na edificação do regime ainda assim não o considerava inimigo número um, posição esta ocupada pelo tal do “Ocidente”.

Outra opositora do Xá que se somou à revolução de 79 foi Minoo Jalali, que também nutria expectativas de liberalização, frustradas pelos muçulmanos.

Uma coisa interessante contida na entrevista de Chahla Chafiq, é o fato de ela mencionar que, embora pertencesse a grupos socialistas contrários ao viés religioso dos islamistas de esquerda, isso não os impediu de apoiarem os mullah como contrapontos ao Ocidente. O socialista crítico do cristianismo, que gosta de posar de racionalista materialista, pode chegar ao ponto de capitular diante de um regime teocrático ou facilitar a sua ascensão.

Houve um surto pós-revolucionário no Irã após a subida do regime teocrático, mas as feministas já haviam cumprido o seu papel e foram devidamente reprimidas, como idiotas instrumentais que são e nunca deixaram de ser, ao contrário do que vem sendo sustentado em outras paragens. O papel desempenhado por esses grupos é o de trabalho crítico, sua função é erodir as bases da sociedade em que se encontram, explorando as contradições nela existentes.

Qual seria, então, a posição delas no que toca à questão islâmica e a República Revolucionária do Irã? A posição das feministas foi o de apoio à revolução iraniana, vista como um salutar golpe desfechado contra o imperialismo e ocidentalismo. Imaginava-se que o islamismo revolucionário seria uma etapa provisória, posteriormente substituída por estrutura política de feições diversas, laicas até. Apoiaram naquela oportunidade, e continuam apoiando até agora, já que os mesmos partidos políticos que abrigam pautas feministas por excelência são aliados do regime de Teerã, tanto PT, quanto PSOL ou a esquerda norte-americana e europeia encaram os recentes ataques como violações à soberania iraniana, críticas ocasionais sobre a questão das mulheres são seguidas por apoio à manutenção do regime.

Elas entendem que, apesar das imposições do Estado teocrático, aquele regime compartilha do mesmo inimigo que elas, então as críticas não são tão contumazes quanto deveriam, caso o objetivo dos movimentos feministas fosse de fato a igualdade e o bem estar das mulheres.

Recentemente, a feminista brasileira Isabella Cêpa teve que se exilar na França devido à perseguição política por críticas feitas a candidatos da ideologia de gênero. Tendo notícia de que o inquérito contra ela fora arquivado pelo Supremo Tribunal Federal, ela resolveu retornar ao País, mas adivinhem o que aconteceu... foi processada novamente pela mesma pessoa.

Hoje, a República Revolucionária pertence ao eixo esquerdista internacional formado por China, Rússia e regimes socialistas como os da América Latina. Todo o conglomerado socialista que abriga pautas feministas deseja igualmente a manutenção do regime dos Aiatolás, pouco importando a repressão que este venha exercer contra as mulheres iranianas.

Falsa, portanto, a alegação de que a população feminina que integra a revolta iraniana é um elemento militante feminista, já que toda a rede internacional busca blindar o governo de Teerã das críticas e oposição necessária, pois compartilham da aversão nutrida pelos revolucionários com relação ao “grande satã” (Estados Unidos) e o “pequeno satã” (Israel).

A afinidade entre grupos islâmicos terroristas e a esquerda não é de hoje. Judith Butler, a ideóloga feminista de terceira geração, ao tratar de grupos como Hamas, confessou que fazem parte da rede global de esquerda, os grupos militantes islâmicos integram o mesmo front de esquerda no qual se situa o feminismo, daí a passividade geral das militantes com relação às imposições da sharia contra as outras mulheres. (Judith Butler : "Le Hamas et le Hezbollah font partie de la gauche mondiale", disponível em https://youtu.be/JTxsPkPHOMs?si=4Kijt3RVkDKLcEZf)

Por décadas, os países ocidentais foram alvo de operações psicológicas e de guerra cultural visando alterar o comportamento de suas mulheres e, a partir delas, modificar o comportamento geral, as sementes de revolta que se encontram no campo inimigo não devem ser dispensadas.

Trocando em miúdos: com fotinha ou sem fotinha de mulher fumando cigarro, o regime podre dos aiatolás merece ser desafiado, principalmente quando aqueles que o desafiam podem ser sancionados pela pena capital, o que demonstra uma coragem que muitos no Brasil não teriam.

Então, ponto a ponto, os sofismas são deixados de lado, nenhum esquerdista tem moral para falar nada sobre antifeminismo, já que o feminismo se trata de um produto das correntes revolucionárias, e revolução é algo que deve ser rejeitado integralmente, tanto nas propostas, quanto nas suas causas e seus efeitos.

A esquerda pariu o feminismo, que se criou no ativismo socialista e anticonservador, e depois de colocar fogo na casa pretende aparecer com o extintor e jatos de água, reivindicando a condição de contraponto à decadência civilizacional.

A subida de Khomeini, o primeiro aiatolá, se deu por um esforço conjugado de grupos socialistas, que continham feministas, depois arrependidas e exiladas. Fizeram a cagada, observamos agora uma revolta generalizada diante das imposições do regime e, se conseguirem a restauração monárquica, estarão voltando ao ponto zero que motivou a revolução de 79.

Quando um malfeito é executado, a exigência mínima é que os grupos que o provocaram se mobilizam para consertá-lo. As execuções de manifestantes, inclusive de mulheres, é algo real, o que demonstra que as fotos de transgressão aos valores islâmicos, queimando a imagem do chefe teocrático e utilizando-o para acender cigarros, são arriscadas. Se elas não estivessem fazendo isso, deveriam ser empurradas para fazê-lo, para derrubar o regime socialista que a geração passada ajudou a construir, então o sangue das mulheres atuais é o preço para compensar a burrice das mulheres passadas. Uma troca justa.

Foi divulgada a notícia de que o jovem iraniano seria executado por protestar contra a autocracia, este sujeito poderia ser você, caso tivesse nascido naquele país e fosse dotado de bolas o suficiente para se posicionar contra o governo, sabendo que correria risco de morte. Então o enquadramento feito pelo discurso retórico de que os protestos seriam por razões patriarcais é destituído de base, as revoltas são por vários motivos, inclusive por falta de água e necessidades básicas da população que não foram supridas, ou seja, vai muito além da mera questão ideológica.

Então temos aqui um castigo triplo, exige-se que: 1) a geração atual de mulheres iranianas se coloque em risco, de prisão ou morte por execução; 2) muito provavelmente tenham novamente o Xá na posição de realeza, algo que as revolucionárias de 79 não queriam; 3) Não gozem do mesmo respaldo que as revolucionárias tinham dos grupos ideológicos de causa feminina – a rede internacional feminista está cagando para a situação das manifestantes que se posicionam contra a República Revolucionária Islâmica (a não ser que consideremos manifestações isoladas de repúdio como atos efetivos, tanto quanto a liberação de dinheiro aos aiatolás, que o partido democrata dos EUA fez quando Biden era presidente).

Na foto, um cartaz da organização feminista CODEPINK, que iniciou uma campanha contra as ações militares dos Estados Unidos e Israel no Oriente Médio, pedindo o fim das hostilidades contra o regime de Ali Khamenei.

 



[1] ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada. Boitempo. Tradução de Nélio Schneider. P. 32.

[2] BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo – 1. Fatos e Mitos. Difusão Europeia do Livro. 1970. Tradução de Sérgio Milliet. p. 159 – versão digital.

As feministas tomaram parte ativa na ascensão do regime teocrático dos Aiatolás

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