Poderíamos traçar o feminismo
desde sua origem, compilando um por um os marcos fundamentais pelos quais a
geração posterior de feministas constrói a sua retórica, apoiando-se ou
confrontando na antecedente. A sua citação é possível, sim, mas a expansão com
comentários suplementares ficará para depois, uma vez que a exposição minuciosa
das ideias centrais desses documentos está fora do escopo neste exato momento.
Em paralelo ao contexto
revolucionário francês do século XVIII, temos a publicação da obra Reivindicação
dos direitos da mulher (1792), por Mary Wollstonecraft, ao lado do
ativismo de Olympe de Gouges que visava estender às mulheres os valores encampados
pelos revolucionários.
Com reveses, de maneira gradual,
o caldo feminista vinha sendo encorpado desde então, mas o seu caráter é de rebelião
contra a figura de autoridade, casando com os propósitos das revoluções. A
Revolução Francesa deu o pontapé inicial para futuras quebras das estruturas
sociais, foi um ensaio para as subsequentes revoluções e sempre gerou
entusiasmo em Vladimir Lênin.
Passando ao século seguinte,
houve a Convenção de Seneca Falls
(1848), por Elizabeth Stanton e Lucracia Mott, que reuniu um grupo minoritário
de homens com uma maioria feminina, a fim de emitir uma Declaração, que pugnava
pela extensão de direitos às mulheres norte-americanas, fazendo um paralelo com
a declaração de independência.
Em 1884 eis que surge uma base fundamental
para o feminismo e a questão de gênero, “A Origem da Família, da Propriedade Privada
e do Estado” de Friedrich Engels, com alguns apontamentos reunidos por
ele, escritos pelo então falecido Karl Marx. Essa obra é responsável por
conferir às relações entre homens e mulheres a tônica de luta de classes, que
persistirá até os dias atuais como patrimônio comum do movimento
revolucionário.
Engles escreveu que:
Em um antigo
manuscrito inédito, elaborado por Marx e por mim em 1846, encontro o seguinte:
“A primeira divisão do trabalho foi a que ocorreu entre homem e mulher visando
à geração de filhos”. E hoje posso acrescentar: o primeiro antagonismo de
classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo
entre homem e mulher no casamento monogâmico, e a primeira opressão de classe coincide com a do sexo feminino pelo
sexo masculino[1].
(grifos nossos)
Seguiu-se uma série de etapas. Em
primeiro lugar, não se colocaram contra a religião, apenas buscaram reconfigurá-la
(Seneca Falls ocorreu em âmbito protestante, numa Igreja Wesleyana). Com a maturação da questão, desprendeu-se
completamente das amarras sociais e não mais sentiu a necessidade de pagar
tributo aos valores tradicionais, passando à negação ativa, ao trabalho crítico
continuado por nomes como Beauvoir, Betty Friedan, Margaret Sangers, Kate
Millet, Solanas, Judith Butler, dentre outros integrantes do hospício da
pseudociência que funciona como motor do fenômeno revolucionário. As feministas
atacam a religião em duas frentes simultâneas: primeiro, enxertando conteúdo
herético e conspurcando conceitos religiosos (exemplo: estudos de ideólogos
questionando se o conceito de Deus é masculino, etc..); em segundo plano,
classificando a religião cristã como produto paternalista que serve aos
interesses de uma sociedade machista.
No primeiro volume de sua obra “O
Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir dissertará sobre a associação do feminismo
com o socialismo, asseverando que:
O feminismo
revolucionário reata com a tradição saint-simoniana e marxista; (...) Em 1879,
o congresso socialista proclamou a igualdade dos sexos e, desde então, a
aliança feminismo-socialismo nunca mais foi denunciada, porquanto é da
emancipação dos trabalhadores em geral que as mulheres esperam a liberdade, não
se prendendo senão de um modo secundário à sua própria causa[2].
Essas questões, que num primeiro
momento nos parecem teóricas, podem ser complementadas com um evento ativista
do campo esquerdista ocorrido pouco mais de um mês atrás.
Em 7 de dezembro de 2025 houve um
ato na Avenida Paulista contra o feminicídio, a principal organização
responsável foi o Movimento Nacional
Mulheres Vivas (também chamado de Levante Mulheres Vivas). Usando de seu
poder de mobilização de grupos sociais à frente da guerra cultural, esse ato
foi repercutido em diversos estados da federação.
A política psolista Sonia
Guajajara, atual ministra dos povos indígenas, escreveu: “O ato na Av. Paulista deu o recado: mulheres vivas! Hoje estive no ato
em Brasília, mas não pude deixar de acompanhar as imagens de São Paulo. Uma
sociedade que se cala em relação à violência contra a mulher jamais poderá
avançar. Pelo Brasil inteiro, vamos juntas!”[3]
Navegando no delírio de que
haveria um extermínio de mulheres no País somente pelo fato de serem mulheres,
o ato reuniu agentes políticos como Erika Hilton (PSOL-SP), Sâmia Bomfim
(PSOL-SP) e Luciene Cavalcante (PSOL-SP).
A CUT (Central Única dos Trabalhadores)[4]
também esteve presente na manifestação, divulgando em suas redes sociais as
cidades e os respectivos horários.
Influenciadores de esquerda, como
a celebridade Luísa Sonza também marcaram presença no evento, que embora não tivesse
caráter partidário expresso, nem por isso deixou menos evidente em qual
espectro da política se encontrava, havendo gritos de oposição ao tal do
bolsonarismo.
Os esquerdistas que fogem da linha
e apresentam comportamento, aos outros tidos como machistas, são denunciados
como esquerdomachos, e seu comportamento desviante é objeto de censura e
zombaria por parte da própria bolha de militantes.
Podem apontar o quanto quiserem
para tais ou quais medidas feministas aprovadas em governos com viés direitista,
o feminismo continuará com o seu DNA esquerdista e figurará na condição de
força política acoplada aos projetos revolucionários. O coletivo feminista que
organizou essa manifestação opõe-se a governos tachados de conservadores, como
o de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), acusado de reduzir verbas para
delegacias da mulher e negar proteção policial ao ato[5].
Ao lado da entidade principal que
coordenou o evento, várias outras estiveram presentes. Não houve presença de
entidades vinculadas à direita, o que foi traduzido pelos órgãos de propaganda
como a baixa preocupação pelo bem estar das mulheres por parte dos direitistas,
reforçando a imagem de misoginia e desprezo à condição feminina.
Dito isso, o movimento feminista
é politicamente organizado e ideologicamente orientado em vistas dos objetivos
práticos das forças políticas às quais ele se encontra vinculado. No caso da revolução
iraniana de 1979, várias entrevistas e fontes de participantes daquela agitação
política atestam como as frentes progressistas foram fundamentais para a
ascensão do atual regime, inclusive frentes feministas. Sim, as feministas
fizeram parte ativa do esforço conjugado que possibilitou a ascensão do
Aiatolá.
Chahla Chafiq[6]
era uma feminista iraniana que apoiou a derrubada do Xá em 1979, depois teve
que viver exilada na França. Em uma entrevista, ela relata que existiam vários
grupos discretos e, quando a revolução aconteceu, eles vieram à tona. Nesse
contexto, antes do estabelecimento total do regime, ela havia integrado “um círculo de marxistas-leninistas e (...)
uma organização estudantil de esquerda”.
Quanto aos agrupamentos
revolucionários, havia os Tudeh, de viés pró-soviético; os Fedayeen,
também pró-soviéticos, porém com simpatias cubanas mais acentuadas; os Line
Three (Linha Três), esquerda independente; por fim, os Mujahedin,
esquerda islâmica.
No fim das contas, os grupos
revolucionários passaram a apoiar os religiosos teocráticos, enxergando neles
uma corrente “anti-imperialista”.
Obtido o poder, as revoluções
precisam promover o alinhamento e daí se segue um período de expurgos, com a
consolidação da corrente revolucionária prevalente, todos os demais grupos de esquerda
que a auxiliaram passam a ser alvos e subjugados pelo partido dominante. Isso
aconteceu na França, na Rússia, na China, na Nicarágua, etc...
Enquanto Khomeini retornava do
exílio e montava a estrutura autocrática de censura, os grupos esquerdistas que
auxiliaram na edificação do regime ainda assim não o considerava inimigo número
um, posição esta ocupada pelo tal do “Ocidente”.
Outra opositora do Xá que se
somou à revolução de 79 foi Minoo Jalali,
que também nutria expectativas de liberalização, frustradas pelos muçulmanos.
Uma coisa interessante contida na
entrevista de Chahla Chafiq, é o fato de ela mencionar que, embora pertencesse
a grupos socialistas contrários ao viés religioso dos islamistas de esquerda,
isso não os impediu de apoiarem os mullah como contrapontos ao Ocidente. O
socialista crítico do cristianismo, que gosta de posar de racionalista
materialista, pode chegar ao ponto de capitular diante de um regime teocrático
ou facilitar a sua ascensão.
Houve um surto pós-revolucionário
no Irã após a subida do regime teocrático, mas as feministas já haviam cumprido
o seu papel e foram devidamente reprimidas, como idiotas instrumentais que são
e nunca deixaram de ser, ao contrário do que vem sendo sustentado em outras
paragens. O papel desempenhado por esses grupos é o de trabalho crítico, sua
função é erodir as bases da sociedade em que se encontram, explorando as
contradições nela existentes.
Qual seria, então, a posição
delas no que toca à questão islâmica e a República Revolucionária do Irã? A posição das feministas foi o de apoio à
revolução iraniana, vista como um salutar golpe desfechado contra o
imperialismo e ocidentalismo. Imaginava-se que o islamismo revolucionário seria
uma etapa provisória, posteriormente substituída por estrutura política de
feições diversas, laicas até. Apoiaram naquela oportunidade, e continuam apoiando
até agora, já que os mesmos partidos políticos que abrigam pautas feministas
por excelência são aliados do regime de Teerã, tanto PT, quanto PSOL ou a
esquerda norte-americana e europeia encaram os recentes ataques como violações
à soberania iraniana, críticas ocasionais sobre a questão das mulheres são
seguidas por apoio à manutenção do regime.
Elas entendem que, apesar das
imposições do Estado teocrático, aquele regime compartilha do mesmo inimigo que
elas, então as críticas não são tão contumazes quanto deveriam, caso o objetivo
dos movimentos feministas fosse de fato a igualdade e o bem estar das mulheres.
Recentemente, a feminista
brasileira Isabella Cêpa teve que se exilar na França devido à perseguição
política por críticas feitas a candidatos da ideologia de gênero. Tendo notícia
de que o inquérito contra ela fora arquivado pelo Supremo Tribunal Federal, ela
resolveu retornar ao País, mas adivinhem o que aconteceu... foi processada
novamente pela mesma pessoa.
Hoje, a República Revolucionária
pertence ao eixo esquerdista internacional formado por China, Rússia e regimes
socialistas como os da América Latina. Todo o conglomerado socialista que
abriga pautas feministas deseja igualmente a manutenção do regime dos Aiatolás,
pouco importando a repressão que este venha exercer contra as mulheres
iranianas.
Falsa, portanto, a alegação de
que a população feminina que integra a revolta iraniana é um elemento militante
feminista, já que toda a rede internacional busca blindar o governo de Teerã
das críticas e oposição necessária, pois compartilham da aversão nutrida pelos
revolucionários com relação ao “grande satã” (Estados Unidos) e o “pequeno satã”
(Israel).
A afinidade entre grupos islâmicos terroristas e a esquerda não é de hoje. Judith Butler, a ideóloga feminista de terceira geração, ao tratar de grupos como Hamas, confessou que fazem parte da rede global de esquerda, os grupos militantes islâmicos integram o mesmo front de esquerda no qual se situa o feminismo, daí a passividade geral das militantes com relação às imposições da sharia contra as outras mulheres. (Judith Butler : "Le Hamas et le Hezbollah font partie de la gauche mondiale", disponível em https://youtu.be/JTxsPkPHOMs?si=4Kijt3RVkDKLcEZf)
Por décadas, os países ocidentais
foram alvo de operações psicológicas e de guerra cultural visando alterar o
comportamento de suas mulheres e, a partir delas, modificar o comportamento
geral, as sementes de revolta que se encontram no campo inimigo não devem ser
dispensadas.
Trocando em miúdos: com fotinha
ou sem fotinha de mulher fumando cigarro, o regime podre dos aiatolás merece
ser desafiado, principalmente quando aqueles que o desafiam podem ser
sancionados pela pena capital, o que demonstra uma coragem que muitos no Brasil
não teriam.
Então, ponto a ponto, os sofismas
são deixados de lado, nenhum esquerdista tem moral para falar nada sobre
antifeminismo, já que o feminismo se trata de um produto das correntes
revolucionárias, e revolução é algo que deve ser rejeitado integralmente, tanto
nas propostas, quanto nas suas causas e seus efeitos.
A esquerda pariu o feminismo, que
se criou no ativismo socialista e anticonservador, e depois de colocar fogo na
casa pretende aparecer com o extintor e jatos de água, reivindicando a condição
de contraponto à decadência civilizacional.
A subida de Khomeini, o primeiro
aiatolá, se deu por um esforço conjugado de grupos socialistas, que continham
feministas, depois arrependidas e exiladas. Fizeram a cagada, observamos agora
uma revolta generalizada diante das imposições do regime e, se conseguirem a
restauração monárquica, estarão voltando ao ponto zero que motivou a revolução
de 79.
Quando um malfeito é executado, a
exigência mínima é que os grupos que o provocaram se mobilizam para
consertá-lo. As execuções de manifestantes, inclusive de mulheres, é algo real,
o que demonstra que as fotos de transgressão aos valores islâmicos, queimando a
imagem do chefe teocrático e utilizando-o para acender cigarros, são arriscadas.
Se elas não estivessem fazendo isso, deveriam ser empurradas para fazê-lo, para
derrubar o regime socialista que a geração passada ajudou a construir, então o
sangue das mulheres atuais é o preço para compensar a burrice das mulheres
passadas. Uma troca justa.
Foi divulgada a notícia de que o
jovem iraniano seria executado por protestar contra a autocracia, este sujeito
poderia ser você, caso tivesse nascido naquele país e fosse dotado de bolas o
suficiente para se posicionar contra o governo, sabendo que correria risco de morte.
Então o enquadramento feito pelo discurso retórico de que os protestos seriam
por razões patriarcais é destituído de base, as revoltas são por vários
motivos, inclusive por falta de água e necessidades básicas da população que
não foram supridas, ou seja, vai muito além da mera questão ideológica.
Então temos aqui um castigo
triplo, exige-se que: 1) a geração atual de mulheres iranianas se coloque em
risco, de prisão ou morte por execução; 2) muito provavelmente tenham novamente
o Xá na posição de realeza, algo que as revolucionárias de 79 não queriam; 3) Não
gozem do mesmo respaldo que as revolucionárias tinham dos grupos ideológicos de
causa feminina – a rede internacional feminista está cagando para a situação
das manifestantes que se posicionam contra a República Revolucionária Islâmica
(a não ser que consideremos manifestações isoladas de repúdio como atos
efetivos, tanto quanto a liberação de dinheiro aos aiatolás, que o partido
democrata dos EUA fez quando Biden era presidente).
Na foto, um cartaz da organização
feminista CODEPINK, que iniciou uma campanha contra as ações militares dos
Estados Unidos e Israel no Oriente Médio, pedindo o fim das hostilidades contra
o regime de Ali Khamenei.
[1] ENGELS,
Friedrich. A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada. Boitempo.
Tradução de Nélio Schneider. P. 32.
[2]
BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo – 1.
Fatos e Mitos. Difusão Europeia do Livro. 1970. Tradução de Sérgio Milliet.
p. 159 – versão digital.
[5]
https://x.com/ErikakHilton/status/1997002899809788275
; ‘Parem de nos matar’: ato em SP reúne milhares de mulheres em grito de
revolta contra feminicídios e falhas em políticas de proteção.
https://www.brasildefato.com.br/2025/12/07/parem-de-nos-matar-ato-em-sp-reune-milhares-de-mulheres-em-grito-de-revolta-contra-feminicidios-e-falhas-em-politicas-de-protecao/;
Basta ao Feminicídio é o grito do
Levante de Mulheres em São Paulo. https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-12/basta-ao-feminicidio-e-o-grito-do-levante-de-mulheres-em-sao-paulo

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