O tal PL da misoginia, mais
propriamente denominado de projeto da censura rosa, foi proposto pela Senadora
Ana Paula Lobato, suplente de Flávio Dino. Essa senadora ocupou a vaga no
senado depois de falhar na carreira política do Maranhão, tendo recebido apenas
29 votos na disputa para Assembleia legislativa do seu Estado [1].
As anomalias da República oligárquica permitem esse tipo de distorção por meio
do qual gente sem representatividade alguma é catapultada para altas posições
devido a arranjos eleitorais. Coligações, mágicas de coeficientes,
conveniências, enfim, tudo quanto é tipo de gambiarra.
O Projeto de lei é bem singelo e
conta com apenas três artigos, mas com o impacto que justifica a repercussão. Embora
o debate institucional e legislativo seja relativo à força bruta do Estado, os
problemas apenas apresentam fase jurídica quando já se encontram suficientemente
alastrados, como uma superfície preenchida por fungos é prova de que o fruto
inteiro está corrompido.
Os centros ideológicos e
pseudo-especialistas precisam constantemente reforçar a imagem de um sistema
montado e voltado à perseguição do sexo feminino, ao ponto em que candidatos
não esquerdistas passam a falar em “feminicídio”, sendo que estatisticamente o
homicídio de homens é incomparavelmente maior que o de mulheres.
O pré-candidato ao governo do Rio
Grande Sul, então deputado Zuccho, disse numa entrevista ao portal Timeline
sobre a gravidade do feminicídio, como se os índices estivessem atingindo a Lua
e esquadrões de homens estivessem perseguindo mulheres, em furgões
descaracterizados. O candidato prossegue papagaiando aquilo que marketeiros e propagandistas
provavelmente sopraram em sua orelha.
Em resumo, a direita debate nos
termos da esquerda e tem medo de ser julgada ao se desviar desse círculo.
E aqui chegamos à questão
Bolsonaro, como extensão quase natural desse padrão de repetição de clichês do
sistema socialista na própria direita que pretende combatê-lo.
O então pré-candidato à
Presidência, Flávio Bolsonaro, foi confrontado em razão de seu voto favorável
ao projeto de lei da censura rosa, que sob o pretexto de misoginia visa
implementar uma censura a conteúdos que sejam tachados como “desfavoráveis às
mulheres”. Apropriadas pelo movimento feminista, seja por inércia própria ou por
força de mobilização da esquerda no tocante a essa pauta, qualquer crítica aos
costumes e militância feminista poderá ser considerado ato de misoginia, dada a
larga interpretação que um judiciário usurpador granjeará para si próprio, como
tem procedido até a presente data, com a cumplicidade de doutrinadores e
palestrantes que aceitaram colocar a técnica e o constitucionalismo em suspenso
a fim de exaltar as modinhas contemporâneas.
Esse resguardo das fraudes
ideológicas por escritores, professores e operadores da área jurídica é mil
vezes mais grave do que a demagogia em plenários e negociatas de bastidores
palacianos, envolvendo agentes político-partidários.
Quanto à legislação sexista, o
assunto não é novo. O próprio pai de Flávio, presidente entre 2019 e 2022,
conta com histórico de conivência e respaldo à agenda feminista, encampada pela
esquerda, e que encontra ressonância na atuação política da direita, seja por
burrice, quando se considera que esses dispositivos são de fato protetivos das
mulheres, ou por burrice ao quadrado, quando se conhece a intenção escusa dos
referidos mecanismos, mas se coloca um cálculo político eleitoreiro como
pretexto para inseri-los na legislação, como se pudessem ser retirados com
facilidade depois e não fossem contribuir para o fortalecimento das próprias
facções sexistas, opostas aos conservadores.
Flávio Bolsonaro tentou explicar
seu voto. Conseguiu que a explicação contradissesse a própria posição na
votação ao confessar que isso é uma forma de censura nas mãos da esquerda. A
sua alegação para votar a favor era que se tratava de uma armadilha e que teria
que passar a campanha inteira tentando se justificar, esforçando-se para
afastar a pecha de machista, agressor e etc...
Foi alegado que o seu voto não
teria impacto no Senado e que a partir daquele momento se deveria atuar para
reverter isso na Câmara. Nesse caso, questiona-se qual é a moral que alguém que
votou a favor de projeto feminista de censura rosa teria para cobrar do
deputado que ele vote contra? A passividade não é uma qualidade de bons líderes
e, considerando que ele disse à imprensa que o projeto era uma armadilha e que
servia à censura, poderia ter votado contra utilizando essa mesma justificativa
em tom firme e acusatório.
E outra, supondo que o voto dele
fizesse diferença, se ele fosse o voto de minerva para definir se o projeto
passaria ou não passaria? O que aconteceria? Provavelmente ele votaria a favor
alegando que a pressão era enorme e usaria de novo o mesmo argumento de que seria
uma "armadilha". Se ele titubeasse, bastaria dizer que o seu voto
contrário ao projeto seria exposto em cinco minutos de Jornal Nacional, ameaça
que faz tremer muitos políticos.
O momento de fraqueza serviu de
plataforma para que outros adversários, que se apresentam como direitistas,
passassem a criticá-lo, em que pese esses mesmos também compartilhassem das
pautas demagogas sexistas, elementos estes que não chegam perto do aspecto
anti-sistêmico do bolsonarismo. Por exemplo, o grupo de centro-esquerda,
MBL/Partido Missão, cujo deputado Kim Kataguiri propôs projeto de lei feminista
no sentido de aumentar penas por “importunação sexual”[2],
o que se converte num pretexto para expansão punitiva contra homens,
considerando que o ônus probatório da acusação é letra morta para casos nos
quais mulheres são sujeitos passivos de delitos. O mesmo deputado propôs porte
de arma para mulheres em circunstâncias de violência doméstica[3].
ANTIFEMINISMO E DIREITA
Se uma pessoa é antifeminista, o
mínimo que se espera é que ela conheça a gênese e o desenvolvimento do
movimento que ela diz ser contra, o que basta para constatar que é um movimento
de viés anti-conservador e que atua, dialeticamente, contra as bases da
sociedade em que se encontra.
O feminismo não é algo para a
direita, as feministas não pertencem à direita, tampouco as suas pautas. Isso
significa que atos favoráveis ao seu projeto contribuem para o aumento do poder
político e cultural da esquerda ou, como alguns ampliam, para o movimento
revolucionário. Quanto mais um político legisla a favor dessa linha, mais perde
poder e se corrói no médio e longo prazo, tendo inclusive de escutar a
reclamação de sua base e lidar com as vantagens concedidas aos seus inimigos.
O feminismo é um movimento revolucionário
de esquerda e não pode ser submetido a uma engenharia reversa por meio da qual
seus adversários dele se apropriam e o desfazem. Nenhum dos agentes políticos
anti-esquerda pode propriamente ser denominado de feminista, o que podem ser
acusados é de prestarem apoio material a projetos, iniciativas e articulações
feministas, embora não subscrevam o programa da agenda.
A imagem motivadora desses agentes
não é aquela proposta pelo programa feminista, mas a de que estão protegendo as
mulheres comuns de parceiros agressivos e abusos similares. Essa tendência
protetiva é estimulada desde o jardim de infância, com aquele ditado segundo o
qual em mulher não se bate nem com uma flor, alimentada com a concepção de que
são criaturas dóceis incapazes de apresentar um aspecto profano.
A visão mangina é levada em
consideração por parte considerável da população, essa visão de que por trás
dos dispositivos está uma manipulação e plataforma para abusos por parte das
mulheres não é popular, nem ganha expressão em trabalhos especializados, antes
é objeto de censura e escárnio, o que não deve servir para desestimular a
constância na demonstração da realidade por parte daqueles que conhecem a
perversidade do Estado formatado por padrões feministas.
Os quadros políticos são
resultado do que a sociedade está discutindo e os candidatos não irão encampar
posições que se encontram restritas a vozes isoladas e bolhas sem que o aparato
ideológico do feminismo seja vencido primeiro.
Para se ter uma ideia, a maior
parte do material trazido para o debate público foi por meio de traduções e de
casos que ocorrem no estrangeiro, seguindo a regra periférica de que muito do
que acontece no Brasil ocorre por meio de repercussão. Isso não obstou a que
canais antifeministas prosperassem tratando de peculiaridades locais, como
políticos e celebridades.
A ideia de um complô feminista
(ou de misandria) será encarada pelo cidadão médio como digna de mentalidade
conspiracionista, os ignorantes precisam arrumar um jeito de retalhar noções
para fazer caber no formato que eles viram na televisão, jornais, novelas e
entrevistas de falsos especialistas.
Embora esses atos de conivência
sejam observados nos atos daqueles que ocupam espaços de decisão, como
deputados, senadores, secretários, governadores, presidentes, etc..., isso repercute
nas suas bases. No caso da censura rosa, não foi nem uma, nem duas ou três
vozes que criticaram a postura do candidato, que contou com o reproche de
vários direitistas, intelectuais, jornalistas ou políticos, para citar alguns: Paulo
Figueiredo, Allan dos Santos, Júlia Zanatta, Bia Kicis, Mário Frias, Flávio
Gordon, João Eigen, Fernanda Salles, Ludmila Lins Grilo, Marco Antônio, Nikolas
Ferreira, Ricardo Salles dentre outros, inclusive o próprio irmão Eduardo
Bolsonaro, que antes da votação do referido projeto publicou em sua rede social
uma postagem contrária ao PL, advertindo acerca da necessidade de a direita não
cair nesse tipo de conversa.
Após a votação unânime no Senado,
Janja publica vídeo dizendo que haveria um esforço do Planalto no sentido de
que esse projeto seja aprovado também na Câmara, aproveitando o momento para
forjar uma imagem de que os contrários ao projeto estariam a favor da violência
contra as mulheres, o mesmo espantalho que será utilizado ad nauseam caso ele
seja aprovado e para colocar em prática o seu verdadeiro intuito de censura e
deformação social generalizada.
Nesse instante, existem ao menos
duas correntes dentro da anti-esquerda: uma desejando vender o movimento de
aprovação como mega estratégia eleitoral pensada, manobra inteligente que
produzirá frutos com ganho de votos, outra apontando o erro e que esse tipo de
atitude era fortalecer o campo inimigo.
Enquanto a direita pensa em
eleições, os revolucionários pensam em poder. Antes mesmo de sentar na cadeira
presidencial já se observa o grau de subserviência à agenda inimiga. Se antes a
aprovação de absurdos feministas era vendida como necessária para manter a
presidência, na disputa pelo Palácio a alegação era de que seria necessária
para voltar ao posto máximo da República. O fracasso da estratégia anterior,
não servindo de referência para a reformulação da posterior, explica a
repetição do mesmo fracasso, a concessão à demagogia resulta em nada no tocante
à conversão dos votos femininos (isso para não falarmos em fatores ocultos que
desempenham papel de peso no pleito). A questão é que o raciocínio
provavelmente foi elaborado por um marqueteiro que não conhece nada sobre
feminismo e movimento revolucionário, alguém que mapeou a votação por sexo e
tentou elaborar uma estratégia para reverter o quadro desfavorável entre
mulheres com relação ao candidato.
A “machosfera” nada mais é do que
um cluster de posicionamentos antifeministas, descentralizados, orgânicos,
predominantemente digitais e que não possuem poder de decisão sobre as pautas
que são aprovadas.
Em circunstâncias ideais, o
antifeminismo deveria ocupar a mesma posição das principais pautas que os
adversários da esquerda compartilham. A questão feminista deveria possuir o
mesmo rigor da questão do aborto, por exemplo. Nenhuma pesquisa deve influenciar
a posição do candidato na questão do aborto, ele deve ser contra, o mesmo vale
para o armamento civil. Estende-se essa lógica para a questão do feminismo.
Enquanto o voto a favor do
projeto de censura rosa repercutiu negativamente no polo antiesquerdista, o
tema prosseguiu livremente no campo da esquerda. Enquanto na direita a base cobra
e se rebela, a esquerda interpreta o momento como sinal verde para seguir
adiante, dado o baixo grau de esclarecimento e coragem na liderança de seus
adversários no tocante a essa pauta.
A falácia do conquistar os votos das mulheres
A mulher brasileira padrão é uma
noveleira, cativa de televisão e órgãos da propaganda semi-estatais como a
Globo, não possuem vontade alguma de entender temas relevantes ou profundos.
Quando elas tomam a palavra “estudo”, isso significa ter um título que as
tornarão aptas a obterem alguma função ou emprego. Elas são como esponjas,
absorvem todas as modinhas que a televisão reproduz ou a academia elabora. Elas
deixaram de servir ao marido e obedecer à Igreja para servir ao Estado.
O marqueteiro desconsidera o
fator revolucionário e olha fixamente para a informação de que as mulheres
correspondem a 52,65% do eleitorado [4].
Se as mulheres são a maioria do eleitorado e aprovar medida pró-mulher traz
voto feminino, tem-se como conclusão de que o candidato vai conseguir melhorar
sua votação nesse eleitorado ao se posicionar favoravelmente a medidas
demagogas do campo feminista.
Não precisávamos esperar para as
eleições de 2026 para elaborar um quadro do que provavelmente ocorrerá, porque
temos dados da eleição passada de 2022. Em 2022, Luis Inácio teria sido eleito
já no primeiro turno se apenas os votos femininos fossem levados em
consideração. Consultando os dados do
portal Poder 360, tem-se que a quantidade de votos femininos se distribui em 57%
para Lula e 32% para Bolsonaro.
Logo, contrariando o raciocínio
do marqueteiro e da demagogia política, projetos que atendem a finalidades de
supremacia feminista não trazem votos para opositores da esquerda, pois essa
questão já é própria do campo canhoto. Sendo assim, ainda que Flávio vencesse,
esses apontamentos feitos aqui continuariam intactos, Lula continuaria com uma
ampla margem de votação entre as mulheres.
Vamos fazer um apanhado
contrastando cada um dos espectros e seu posicionamento diante da corrente
ideológica feminista.
De um lado observa-se a
docilidade cúmplice, motivada pelo manginismo, enquanto do outro temos a
militância enragée motivada pelo feminismo propriamente dito.
Com a revolução, o feminismo é
feito por engajamento e vinculação, na direita ele é de associação frouxa e
episódica; com a revolução, a colaboração para o feminismo é ativa, enquanto
que na direita a colaboração é passiva, buscando surfar numa onda provocada
pelo campo esquerdista. Com a revolução, fala-se em feminismo propriamente dito,
no conservadorismo o motor não é feminista, mas ginocêntrico e movido por
manginice.
Ainda, com a revolução, o
feminismo é essencial e se incorporou como patrimônio comum da luta insurgente,
absorvido enquanto propriedade do movimento esquerdista inteiro, no direitismo
ele ocupa um papel acidental e é obedecido não por razões de pertinência, mas
de hegemonia cultural e política, somada à incapacidade de se criar ou
fortalecer uma linguagem própria (por exemplo, quando um agente político
aleatório apela a clichês como feminicídio, violência doméstica contra mulheres
e homens agressores como ocorrências universais que exigem pronta intervenção
estatal, excluindo da discussão a manipulação desses instrumentos legais para
finalidades supremacistas das feministas).
Fora da esquerda, a verve
manginista se choca com outra: a liberdade de expressão; já na esquerda o
impulso feminista converge com a vontade
de censura, resultado numa mistura potente e auxiliar da consolidação do
regime.
Então no campo revolucionário, o
feminismo está em casa, enquanto que no espectro em que lhe é oposto ele não é
mais que um corpo estranho, que entrou convidado, e passou a envenenar todos os
copos da casa para se livrar ou enfraquecer os seus habitantes.
Na onda revolucionária, o feminismo
fortalece a esquerda e satisfaz os aglomerados grupais engajados na luta
cultural; na direita, por sua vez, ocorre o enfraquecimento e insatisfação da
base (o que por si só já é uma evidência do seu caráter de corpo estranho na
atuação política direitista).
A oposição ao feminismo não pode
ser simplificada como mero fenômeno de classe, como se, observada a atuação das
feministas no sentido de sequestrar os interesses da “classe” feminina, haveria
um contra-movimento masculinista para representar os interesses de classe dos
homens. A situação é mais grave e não se trata de um mero sindicato de sexos.
Não é o interesse de classe que
sustenta a oposição ao feminismo, mas o fator moral. Sem base moral, as
reivindicações se tornam fúteis ou indiferentes, como se se tratasse de um
grupo de funcionários públicos cujas associações pleiteiam aumento, reajuste e
vantagens estatutárias, pouco importando o cenário geral do País ou do mundo. Sempre
que o problema for de interesse de classe, sabe-se que é apenas uma categoria
em busca de benefícios a mais, então poderemos sempre lhes opor o famoso “e
daí?”. Por outro lado, quando o fundo da questão for algo relacionado à Justiça
e à Moral, esse “e daí?” só poderá ser pronunciado por canalhas.
Ancorada na revolução sexual,
existem alguns pontos basilares que justificam a natureza revolucionária do
feminismo.
As experiências revolucionárias
focam em Igualitarismo. Daí a
necessidade de, sob uma pretensa igualdade, fazer tábula rasa das relações
entre homens e mulheres, sustentando privilégios artificiais com a
justificativa de se atingir a “igualdade material” que a doutrina e
constituição impõem.
A direita não é igualitária e se
orgulha disso, o que a coloca em rota de colisão com as pretensões de
feministas e seus anexos. A própria ideia de divisão de papéis sexuais evoca a
distinção natural existente e que é negada pela pseudociência cultivada em
think tanks, sendo essa negação a coluna vertebral do feminismo, que repete o
non servit: o “não servirei”.
A direita se afasta de fórmulas
estatizantes, enquanto o feminismo só consegue se impor de fato com o auxílio
do Estado. Doutrinas que advogam um modelo estatal mínimo entram em rota de
colisão com as pretensões de articular os mecanismos estatais para fins de
supremacia feminista, inevitavelmente ligada ao aparelhamento. Doutrinas de
Estado mínimo constituem obstáculo à formatação do Estado cafetão que as
feministas precisam para se imporem com efetividade.
O liberal da escola austríaca,
Ludwig Von Mises, fez observações acerca do feminismo e a sua possibilidade de
se transformar num fator nocivo à sociedade (isso na década de 30), embora o
liberalismo não seja suficiente para combater feminismo, é a base moral que o
faz.
Cotas para mulheres em vagas de
emprego, delegacias especializadas, diplomas legislativos específicos para
servir aos desígnios das mulheres nas posições de esposas, mães ou meras
namoradas, maternidade solteira subsidiada, até a distribuição de absorventes
com dinheiro público e disponibilização de funcionários de bar ou boate para
levar a baladeira até o seu carro são fatos representativos da formatação
estatal conforme essa figura da mulher moderna.
É o quadro de um ciclo que não é
quebrado de uma hora para a outra e depende de análise prévia e adequada para
uma condenação forte. Ao contrário do que afirmam alguns, de que os homens
estão esclarecidos acerca desse estado de coisas, eu afirmo que eles estão, no
máximo, abertos ao esclarecimento (ainda assim, nem todos). O esclarecimento
naturalmente conduz à ação, o conhecimento sobre determinado tópico implica na
modificação de atitudes e, no caso de que tratamos, haveria a formação de
associações, círculos de debates, grupos, inclusive grupos organizados para
lobby, produção de material como livros, cartazes, músicas e etc..., tudo isso
geraria um desafio aberto à demagogia dos cultistas do gênero.
O só fato de que o projeto de lei
da censura rosa contou com aprovação unânime no Senado da República já
significa que não há essa conscientização no nível que se imagina. Após décadas
de lavagem cerebral, os políticos aprenderam a repetir mantras e clichês típicos
dessa ideologia como se dotados fossem de validade universal. O esclarecimento
feito pelos antifeministas implicaria na existência de desafios efetivos à
hegemonia sexista, então o candidato poderia abertamente contestar todas as
medidas propostas, falar em termos verdadeiramente antifeministas como se de
fato fosse uma posição politicamente aceita e evidente, sem se acovardar por
medo de um massacre midiático.
Então existem esses dois fatores
no panorama psicossocial, sendo um o feminismo organizado (que conta com think
tanks, base literária, fundo cultural e militância paga), outro o manginismo
difuso e tapado, compartilhado por homens anacrônicos, idealizadores da figura
da mulher de uma maneira quase mítica.
Algumas movimentações dentro do
masculinismo buscaram influência na política, como é o caso do direito dos
homens. O fato é que existe uma predisposição entre os homens de ridicularizar
as iniciativas com caráter político. Se para as feministas o pessoal é
político, nos homens vigora a ilusão de que basta fechar-se numa caverna, viver
no modo ghost ou pílula alguma coisa que a tempestade passará em um determinado
momento.
Antifeminismo existe?
Grosso modo, o candidato merece
ser criticado diante da concessão feita à agenda feminista, com a constatação
de que com ela ele não se confunde, nem se coloca na posição de adepto. Assim,
é possível avançar ainda mais a observação para atestar que antifeminismo de
fato só pode existir como contraposição aos esquerdistas.
Com o truque semântico de se atribuir
a alcunha de progressistas, eles se colocaram na posição de antever os
posteriores estágios da civilização, num movimento de regresso e progressão,
podendo jogar aos adversários o anátema que a primeira expressão evoca. Justamente
por essa distorção é que os antifeministas são jogados para a categoria de
trogloditas e neandertais, o que faz total sentido para a visão dos
revolucionários, porque o feminismo já é um ponto fixo e irremovível da sua
agenda, alinhada com o “progresso”.
Diante do cenário que se desenha,
os não revolucionários podem prosseguir adotando a linha de tentar “roubar”
(com muitas aspas) a pauta feminina para si, e alimentar a legitimidade dessa
questão, ou podem elaborar uma postura própria de contraposição às narrativas e
falácias a eles impostas. A tática eleitoral se insere na primeira opção, que
já é fracassada desde o início; o segundo caminho é o que daria expressão a um
antifeminismo genuíno.
No mais, resta óbvio de que,
enquanto movimento, o antifeminismo não existe, mas se tiver de existir, terá a
sua expressão aonde existem vozes críticas ao feminismo, não no bloco maciço
que abraça essa causa como sua própria identidade. Foi a direita quem buscou
investigar a versão completa do caso Maria da Penha, provocando reações do
sistema feminista consolidado e seus agentes político-ideológicos no Ministério
Público e Judiciário, que participam dos simpósios e demais rituais cívicos
para manter viva a irracionalidade de suas pautas.
O jornalista conservador Ricardo
Roveran afirmou categoricamente que o ex-marido de Maria da Penha é inocente.
Críticas ao caso Ferrer são recorrentes nos círculos midiáticos
antiesquerdistas, o que demonstra que muitos não estão dispostos a aderir à
narrativa predominante e que essa tendência mangina apresenta fraturas
consideráveis, que poderiam ser exploradas por um antifeminismo autêntico.
Eleições?
Embora as eleições não resolvam
tudo, podem atrapalhar bastante. No caso específico das eleições brasileiras de
2026, assim como ocorreu em 2018, não havia espaço para alimentar a ilusão de
um governo proativamente antifeminista.
Por isso mesmo, a posição segundo
a qual se deveria “abandonar o antifeminismo” deve ser descartada de imediato.
Isso foi defendido recentemente por uma autora que abordou o tema em recente
livro, ela diz “abandonem o antifeminismo”, ao que se deve perguntar: qual
antifeminismo? Aonde é que você está vendo antifeminismo, ou mesmo resquício de
antifeminismo, que pudesse ser abandonado? Esses questionamentos são os que
seriam feitos caso houvesse de fato, uma massa crítica antifeminista. O simples
fato de uma tese como essa circular sem ser devidamente criticada, de maneira
sistemática e cabal, traz à luz uma dura verdade: dicas de estilo de vida não
se confundem com massa crítica.
Colocados esses pontos, enquanto
a política geral se desenrola, o masculinismo tende a permanecer fechado numa
espécie de bolha autista, sem repercussões nem influências significativas, com
coaches aqui e ali, sem que isso sirva para alterar nada com efetividade,
apenas satisfazer carências pontuais de uma massa desorientada e incapaz de
agir.
Aqueles que tiverem interesse no
assunto manterão, como repete o ditado, um olho no peixe e outro no gato: o que
significa dizer que se deve manter, por um lado, em todas as instâncias,
oposição reiterada ao sistema socialista e de esquerda, que abriga e sustenta o feminismo, e por outro verificar
de que maneira o problema do feminismo continua sendo abordado por vozes
esparsas.

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