quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Betty Friedan: de militante comunista a dona de casa crítica do conservadorismo norte-americano

 


Um dos livros mais asquerosos que tiveram impacto na mentalidade moderna foi “A Mística Feminina” (1963) de Betty Friedan. Essa publicação mirou em mulheres donas de casa que eram sustentadas pelos maridos e seguiam os seus papéis de educadoras, mães e esposas que se encarregavam do dever doméstico enquanto a figura masculina se inseria no mercado de trabalho.

A guerra de Betty Friedan é contra a mulher funcional, acusada de ser reduzida ao papel de peça na engrenagem do sistema patriarcal. Consciente ou não, Friedan travou uma guerra psicológica focada em esposas dentro dos seus lares, o seu papel era infectar outras donas de casa, usando a sua própria condição de esposa como base para desmerecer essa posição e sustentar que era algo degradante e que, para que elas atingissem um plano superior, deveriam se desvincular de tal posição.

Como todos os movimentos revolucionários, Friedan se encarregou de vocalizar o anticonservadorismo típico das feministas, então de um lado as feministas militantes atuavam extramuros, do outro a difusão ideológica de Friedan atuava intramuros. Se houvesse alguma mulher tradicional naquela altura que, observando as feministas militantes, as considerassem desvairadas, haveria então o exemplo de Friedan que, não obstante ser uma dona de casa e mãe, subscrevia praticamente todos os pontos sustentados pelas ativistas dos direitos das mulheres. 

O dito feminismo liberal apenas confirma e facilita as conclusões do feminismo radical, que não é senão um estágio mais desavergonhado daquele outro, que apenas alegava querer igualdade de condições. No final das contas, o alvo de ambos era o conservadorismo norte-americano.

Mas, antes de se colocar na posição de simples dona de casa que faz desaguar suas angústias num livro manifesto, Friedan fez parte de círculos universitários incumbidos de difundir a militância mais escrachada.

Frequentou a universidade (Smith College) no final dos anos 30 e fez pós-graduação em Berkeley, mergulhando nos círculos da esquerda com forte influência marxista[1], em proximidade com o Partido Comunista dos Estados Unidos da América (CP USA).

Em seus anos de formação, participou de grupos de estudos marxistas, escreveu artigos em defesa de temas conexos à esquerda, como a crítica do capitalismo, defesa dos sindicatos e a opressão das mulheres trabalhadoras.

Toda a sua atividade precoce foi marcada por proximidade com militantes e simpatizantes da causa socialista. Em 2010, o historiador do partido comunista americano, Norman Markowitz, considerou que muito do ativismo e modo de pensar de Friedan poderia ser rastreado até o Partido Comunista dos Estados Unidos da América, embora ela tenha acobertado esse fato.

 

Betty Friedan, por exemplo, vinha de uma família judaico-americana de classe média em Illinois, frequentou uma faculdade feminina de elite durante a Segunda Guerra Mundial e, depois, fez pós-graduação em Berkeley. Ali, envolveu-se em diversas lutas políticas, algumas das quais incluíam ativistas do Partido Comunista, e em seguida foi trabalhar para a Federated Press, ligada à esquerda trabalhista. Esse veículo de comunicação procurava oferecer à mídia da classe trabalhadora o que a Associated Press oferecia à mídia capitalista. Mais tarde, Friedan escreveu para o UE News e apoiou o Partido Progressista em 1948. Betty Friedan formou-se politicamente em um movimento e em uma cultura de esquerda nos quais o CPUSA desempenhava o papel dirigente. Embora a repressão do pós-guerra tenha encerrado sua carreira como jornalista da esquerda trabalhista, ela continuou tentando escrever para publicações femininas enquanto se acomodava, de maneira desconfortável, ao papel de dona de casa suburbana.

As questões do chauvinismo masculino dentro do CPUSA foram retomadas durante o início da Guerra Fria e debatidas em clubes e fóruns do partido, enquanto a repressão buscava construir o que o filósofo francês Jean-Paul Sartre chamou de anel de fogo entre os comunistas e os demais cidadãos. Betty Friedan, por meio de sua obra do início dos anos 1960, A Mística Feminina, desempenhou um papel essencial na formulação do que, nos círculos socialistas e posteriormente comunistas, era chamado de “a questão feminina”. Ela sempre se esforçou ao máximo para ocultar ou simplesmente ignorar seu passado à medida que se tornava uma celebridade, e direcionou seu feminismo inicialmente às mulheres com formação universitária, frustradas com suas vidas como donas de casa, cujo trabalho era ao mesmo tempo não remunerado e desvalorizado.

Entretanto, pode-se encontrar em sua obra uma análise das ideologias de opressão e uma resistência a elas que constituíram um fundamento do movimento comunista no período em que ela atingiu a maturidade política. Também é possível identificar, em seu trabalho posterior como fundadora da National Organization for Women (NOW), uma ênfase na construção de organizações amplas e inclusivas e na ação política tanto dentro quanto fora dos canais institucionais tradicionais. Ela defendia a realização de lobby por mudanças na lei, a organização de protestos de massa para impulsionar tais mudanças e a preparação do movimento para avanços futuros. Esse tipo de perspectiva estratégica e tática também caracterizava o Partido Comunista e o movimento de esquerda mais amplo do qual ele era a força dirigente na juventude de Friedan[2].

 

De fato, ela entendia que havia essa conexão entre a questão das mulheres e a causa socialista, algo que outra autora futuramente dirá, que o marxismo deveria se alinhar ao feminismo e que o feminismo deveria se tornar também marxista.

Friedan se tornou propagandista entre 1938 e 1942, depois largou a faculdade para se tornar uma repórter a serviço do ativismo entre 1946 e 1952, num jornal vinculado ao sindicato United Electrical Workers, o UE News, um dos mais dominados pelos comunistas naquela época (1947). Antes de trabalhar nesse órgão de imprensa, ela foi demitida de outro devido a posições pró-soviéticas[3] (um artigo deixa isso em dúvida, teria sido a sua postura favorável aos soviéticos a causa da demissão ou simplesmente para dar lugar a um homem? Afinal de contas, os homens são culpados de tudo).

Esse antro de comunistas chamou a atenção dos congressistas dos EUA naquela época, que estavam investigando as atividades dos internacionalistas vermelhos.

Friedan também frequentou o Highlander Folk School, um centro de treinamento ativista dos socialistas.

Com a chegada dos anos 50, as atividades de contra-inteligência das autoridades norte-americanas passaram a ser combatidas pela propaganda socialista e então cunharam-se termos como “Red Scare” e “Macartismo”, numa tentativa deliberada de mover a opinião pública e blindar os comunistas infiltrados em postos de relevo da sociedade e do governo. Vocês escutarão também a tentativa de enquadramento da exposição de agentes como sendo caça às bruxas, uma expressão conveniente, porque Friedan poderia bem ser denominada de bruxa.

Sobre os impactos da reação às atividades comunistas, também chamadas na época de atividades antiamericanas, Horowitz escreve: “Desejo destacar o dano que o macartismo causou aos movimentos sociais progressistas nas décadas de 1940 e início de 1950, e especialmente ao feminismo, que ele forçou à clandestinidade, mas não conseguiu destruir.”[4]

Então, de militante socialista a ativista passa a ser um a dona de casa com cara de sonsa, com medo da reação anticomunista impulsionada pelas forças conservadoras dos anos 50 e 60, considerando que uma reação anti-revolucionária razoavelmente esclarecida constitui ameaça tanto ao espectro comunista quanto ao feminista, pois estes elementos trabalham conjuntamente.

Friedan passou a ocultar a sua prévia atividade socialista, continuando o trabalho sutil de subversão da sociedade norte-americana em termos de direitos civis, ela se colocou na posição de mera dona de casa que colocava em seus escritos observações sobre a situação das mulheres. Ao invés da defesa ativa dos socialistas, ela acabou por contribuir para a causa de outra forma, simplesmente atacando as bases da sociedade existente, fragilizando-a e facilitando o trabalho dos revolucionários.

Exercendo o trabalho crítico contra o conservadorismo norte-americano, automaticamente as hostes feministas se beneficiariam e, com elas, o complexo socialista ao qual elas pertencem.

Ela atacou a ideia da dona de casa que se realiza em seus afazeres domésticos, tratar-se-ia de modelo feminino cunhado pela sociedade de consumo e funcional ao sistema capitalista do pós-guerra e, com ele, essencial à manutenção da ordem social conservadora.

Em debates, propugnaria pelo aborto, liberação sexual e divórcio livre, em contraponto aos religiosos que condenavam tais pautas. O desencorajamento social às mães solteiras também era interpretado como preconceito e hostilidade à liberdade feminina, pois mães solteiras seriam aquelas que teriam quebrado “A Mística Feminina” da boa esposa.

O que é a Mística Feminina? Trata-se da imagem confeccionada pela sociedade burguesa de maneira a limitar as mulheres a papéis fixos, convenientes ao patriarcalismo, impedindo-as de desenvolver todas as suas potencialidades humanas, que estão para além do lar doméstico. A mística feminina seria a narrativa usada para encapsular a mulher conforme os interesses masculinos, o movimento de libertação feminina é a destruição disso que ela denomina de “mística feminina”.

Horowitz alude ao fato de que os movimentos sociais e seus líderes não surgem do nada, antes possuem uma história responsável por modelar os seus destinos. Uma das características dos movimentos internacionalistas é o intercâmbio de experiências, os frutos da revolução de 1917 da Rússia foram aplaudidos pelas integrantes da “segunda onda”, nessa linha de raciocínio, Augusto Zimmermann escreve que:

 

“(...) a desintegração da família, facilitada pelo Código Soviético sobre Casamento e Família, transformou o divórcio em algo fácil e acessível. O resultado foi um enorme aumento de casamentos ocasionais e a mais alta taxa de divórcios do mundo. O resultado das políticas antimatrimônio na União Soviética foi um aumento dramático no número de lares desfeitos e de abortos. Em 1934, somente em Moscou, houve 57.000 nascimentos vivos em comparação com 154.000 abortos. Relata-se que um grande número de mulheres morreu em decorrência dessas interrupções da gravidez”. (...) “Friedan apoiou essas políticas soviéticas, pois percebia a família tradicional como o maior obstáculo à socialização das crianças”.[5]

 

Entre o feminismo liberal e o feminismo marxista não há uma oposição, mas um jogo de cena ou, melhor, uma orquestra, cada qual toca o seu instrumento a fim de produzir a melodia de acordo com os tons mais adequados para cada ambiente. Friedan presta tributo à obra de Kollontai e, juntas, marcam o alvo no conservadorismo de suas respectivas sociedades. Zimmermann assevera:

 

Como observa o historiador britânico Orlando Figes: a família foi a primeira arena na qual os bolcheviques travaram a luta. Na década de 1920, eles tomaram como artigo de fé que a “família burguesa” era socialmente nociva: era introvertida e conservadora, um reduto de religião, superstição, ignorância e preconceito; fomentava o egoísmo e a avidez material, e oprimia mulheres e crianças. Os bolcheviques esperavam que a família desaparecesse à medida que a Rússia soviética se desenvolvesse em um sistema plenamente socialista, no qual o Estado assumisse a responsabilidade por todas as funções domésticas básicas… O casamento patriarcal, com sua moral sexual associada, desapareceria — para ser substituído, acreditavam os radicais, por “uniões livres de amor”.

 

Ironicamente, diante das uniões matrimoniais de sua época, a Friedan advogou que as mulheres abandonassem seus maridos e seguissem o seu próprio caminho, por assim dizer. Esse fato é erroneamente considerado para traçar equivalências entre as feministas, de um lado, e os masculinistas, de outro.

A pergunta que fazem é: se as correntes feministas buscam destruir os laços matrimoniais e nutrem hostilidades com relação ao casamento, separando as mulheres da ambição de formarem uniões sólidas e autênticas, então os antifeministas, ao se posicionarem contra o casamento, também não estariam fazendo o mesmo? A resposta se encontra no contraste com a frequência na qual o feminismo atua.

Quando o feminismo se espalha em determinada sociedade, ele busca conspurcar os institutos e atua de maneira a produzir entropia no meio em que é introduzido, observa a possibilidade de relações estáveis e busca introduzir o divórcio, havendo divisão de tarefas entre ambos os sexos, ele prolonga o trabalho socialista de luta de classes e o aplica às relações sexuais para enquadrar tais relações como exploratórias, sua principal fonte de incômodo é que as relações se encontram harmonizadas conforme as leis naturais (as “configurações de fábrica”) e as leis morais (surgidas da convivência, tradição e concepção de justiça), e então atua para desafiar os padrões e promover a quebra dessas estruturas ordenadas, em suma, a frequência desse movimento é revolucionária.

Por outro lado, a fonte de incômodo provocado nos antifeministas provêm justamente do desalinho, do fato de se perceber que os modelos familiares existentes não são modelos autênticos, mas gambiarras. Se houve consolidação dos pontos defendidos pelas militantes socialistas dentro do conceito jurídico de casamento, é porque de matrimônio não mais se trata, ele se transmutou em outra coisa e aceitá-lo implicaria em aceitar também os seus pressupostos, que no final das contas são antifamiliares. Os antifeministas fazem uma leitura geral das relações sexuais, amorosas e matrimoniais, complementam com as suas experiências particulares, em seguida extraem uma conclusão que se manifesta na forma de reação a estado de coisas entrópico, a postura antifeminista é necessariamente reacionária.  Não só o é, como será universalmente reconhecida como tal pelos partidários do autonomeado progressismo.

Não confundindo com David Horowitz[6], que também dissertou sobre o passado comunista de Friedan, Daniel Horowitz (este é outro autor) sustentou em seu livro que o feminismo de Friedan ia muito além da mera experiência de dona de casa num subúrbio dos Estados Unidos e que, para melhor compreendê-la, era necessário rastrear suas atividades até os movimentos de classe que orbitavam o esquerdismo do pós-guerra[7].

Ela tenta fazer parecer que o desnudamento de uma alegada Mística Feminina decorreu da sua experiência como esposa e dona de casa, mas basta analisar a sua biografia para constatar os fatores que formaram a sua mentalidade, sua passagem pelo sistema educacional já fortemente influenciado por ideólogos e a atuação profissional comprometida com as pautas socialistas constituíram etapas comuns à formação de um modelo feminino que erroneamente considerava o casamento uma fonte de opressão feminina, porque a realidade do quadro era que esse tipo de mulher já era imprestável para o matrimônio. Então o problema não era a formatação do casamento naquela época, mas sim que os queixumes contra a mística feminina (que é uma fabricação feita com propósitos retóricos), surgiam de uma mulher imprestável para casamento. Friedan contraiu matrimônio por acidente, se tornou esposa por um azar e virou mãe por uma tragédia, deveria ter permanecido largada no canto ou, caso mantivesse namoro, ter sido largada imediatamente após o seu parceiro notar com que tipo de mentalidade estava lidando.

Friedan começa o seu livro dizendo haver um problema sem nome, que existe uma questão feminina que precisava ser explorada e que importava a todos, sendo de relevância para o sexo em geral. Na verdade, ela estava apenas projetando angústias de uma dona de casa complexada, uma fêmea estragada para manter relacionamentos saudáveis. Sua mentalidade era uma anomalia na época, mas com o passar dos anos, quase como feitiço, a bruxaria se espalhou e a anomalia se tornou regra.

Em questão de influência, a publicação de Friedan funcionou como uma bomba psicológica que alterou o debate da questão sexual nos Estados Unidos durante a metade do século XX[8], muitos dos pontos por ela levantados se incorporaram permanentemente na retórica revolucionária. Reproduzindo esse mesmo modelo, o resultado é uma geração de mulheres estragadas para relacionamento, tanto quanto a própria Friedan, a bruxa, era.



[1]Friedan and feminism's long links with the fight for wider equality. https://www.theguardian.com/world/2013/jan/18/friedan-feminism-fight-for-equality

[2] Tradução livre de KEYWIKI. Betty Friedan. https://keywiki.org/Betty_Friedan

[3] BOUCHER, Joanne. Betty Friedan and the Radical Past of Liberal Feminism. https://archive.newpol.org/issue35/boucher35.htm#r11

[4] Idem.

[5] Tradução livre de ZIMMERMANN, Augusto. Assessing the destructive impact of ‘Stalinist feminism’. https://www.mercatornet.com/assessing_the_destructive_impact_of_stalinist_feminism

[6]HOROWITZ, David. Betty Friedan's secret Communist past.. https://writing.upenn.edu/~afilreis/50s/friedan-per-horowitz.html

[7] HOROWITZ, Daniel. Betty Friedan and the making of The feminine mystique. 1998. IX

[8] Idem. P. 3

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