Um dos livros mais asquerosos que
tiveram impacto na mentalidade moderna foi “A Mística Feminina” (1963) de Betty
Friedan. Essa publicação mirou em mulheres donas de casa que eram sustentadas
pelos maridos e seguiam os seus papéis de educadoras, mães e esposas que se
encarregavam do dever doméstico enquanto a figura masculina se inseria no
mercado de trabalho.
A guerra de Betty Friedan é
contra a mulher funcional, acusada de ser reduzida ao papel de peça na
engrenagem do sistema patriarcal. Consciente ou não, Friedan travou uma guerra
psicológica focada em esposas dentro dos seus lares, o seu papel era infectar
outras donas de casa, usando a sua própria condição de esposa como base para
desmerecer essa posição e sustentar que era algo degradante e que, para que
elas atingissem um plano superior, deveriam se desvincular de tal posição.
Como todos os movimentos
revolucionários, Friedan se encarregou de vocalizar o anticonservadorismo
típico das feministas, então de um lado as feministas militantes atuavam extramuros, do outro a difusão
ideológica de Friedan atuava intramuros. Se
houvesse alguma mulher tradicional
naquela altura que, observando as feministas militantes, as considerassem
desvairadas, haveria então o exemplo de Friedan que, não obstante ser uma dona
de casa e mãe, subscrevia praticamente todos os pontos sustentados pelas
ativistas dos direitos das mulheres.
O dito feminismo liberal apenas
confirma e facilita as conclusões do feminismo radical, que não é senão um
estágio mais desavergonhado daquele outro, que apenas alegava querer igualdade
de condições. No final das contas, o alvo de ambos era o conservadorismo
norte-americano.
Mas, antes de se colocar na
posição de simples dona de casa que faz desaguar suas angústias num livro
manifesto, Friedan fez parte de círculos universitários incumbidos de difundir
a militância mais escrachada.
Frequentou a universidade (Smith
College) no final dos anos 30 e fez pós-graduação em Berkeley, mergulhando nos
círculos da esquerda com forte influência marxista[1],
em proximidade com o Partido Comunista dos Estados Unidos da América (CP USA).
Em seus anos de formação,
participou de grupos de estudos marxistas, escreveu artigos em defesa de temas
conexos à esquerda, como a crítica do capitalismo, defesa dos sindicatos e a
opressão das mulheres trabalhadoras.
Toda a sua atividade precoce foi
marcada por proximidade com militantes e simpatizantes da causa socialista. Em
2010, o historiador do partido comunista americano, Norman Markowitz,
considerou que muito do ativismo e modo de pensar de Friedan poderia ser
rastreado até o Partido Comunista dos Estados Unidos da América, embora ela
tenha acobertado esse fato.
Betty Friedan, por exemplo, vinha de uma
família judaico-americana de classe média em Illinois, frequentou uma faculdade
feminina de elite durante a Segunda Guerra Mundial e, depois, fez pós-graduação
em Berkeley. Ali, envolveu-se em diversas lutas políticas, algumas das quais
incluíam ativistas do Partido Comunista, e em seguida foi trabalhar para a
Federated Press, ligada à esquerda trabalhista. Esse veículo de comunicação
procurava oferecer à mídia da classe trabalhadora o que a Associated Press oferecia
à mídia capitalista. Mais tarde, Friedan escreveu para o UE News e apoiou o
Partido Progressista em 1948. Betty Friedan formou-se politicamente em um
movimento e em uma cultura de esquerda nos quais o CPUSA desempenhava o papel
dirigente. Embora a repressão do pós-guerra tenha encerrado sua carreira como
jornalista da esquerda trabalhista, ela continuou tentando escrever para
publicações femininas enquanto se acomodava, de maneira desconfortável, ao
papel de dona de casa suburbana.
As questões do chauvinismo masculino dentro
do CPUSA foram retomadas durante o início da Guerra Fria e debatidas em clubes
e fóruns do partido, enquanto a repressão buscava construir o que o filósofo
francês Jean-Paul Sartre chamou de anel de fogo entre os comunistas e os demais
cidadãos. Betty Friedan, por meio de sua obra do início dos anos 1960, A
Mística Feminina, desempenhou um papel essencial na formulação do que, nos
círculos socialistas e posteriormente comunistas, era chamado de “a questão
feminina”. Ela sempre se esforçou ao máximo para ocultar ou simplesmente
ignorar seu passado à medida que se tornava uma celebridade, e direcionou seu
feminismo inicialmente às mulheres com formação universitária, frustradas com
suas vidas como donas de casa, cujo trabalho era ao mesmo tempo não remunerado
e desvalorizado.
Entretanto, pode-se encontrar em sua obra
uma análise das ideologias de opressão e uma resistência a elas que
constituíram um fundamento do movimento comunista no período em que ela atingiu
a maturidade política. Também é possível identificar, em seu trabalho posterior
como fundadora da National Organization for Women (NOW), uma ênfase na
construção de organizações amplas e inclusivas e na ação política tanto dentro
quanto fora dos canais institucionais tradicionais. Ela defendia a realização
de lobby por mudanças na lei, a organização de protestos de massa para
impulsionar tais mudanças e a preparação do movimento para avanços futuros.
Esse tipo de perspectiva estratégica e tática também caracterizava o Partido
Comunista e o movimento de esquerda mais amplo do qual ele era a força
dirigente na juventude de Friedan[2].
De fato, ela entendia que havia
essa conexão entre a questão das mulheres e a causa socialista, algo que outra
autora futuramente dirá, que o marxismo deveria se alinhar ao feminismo e que o
feminismo deveria se tornar também marxista.
Friedan se tornou propagandista
entre 1938 e 1942, depois largou a faculdade para se tornar uma repórter a
serviço do ativismo entre 1946 e 1952, num jornal vinculado ao sindicato United
Electrical Workers, o UE News, um dos mais dominados pelos comunistas naquela
época (1947). Antes de trabalhar nesse órgão de imprensa, ela foi demitida de
outro devido a posições pró-soviéticas[3]
(um artigo deixa isso em dúvida, teria sido a sua postura favorável aos
soviéticos a causa da demissão ou simplesmente para dar lugar a um homem?
Afinal de contas, os homens são culpados de tudo).
Esse antro de comunistas chamou a
atenção dos congressistas dos EUA naquela época, que estavam investigando as
atividades dos internacionalistas vermelhos.
Friedan também frequentou o
Highlander Folk School, um centro de treinamento ativista dos socialistas.
Com a chegada dos anos 50, as
atividades de contra-inteligência das autoridades norte-americanas passaram a
ser combatidas pela propaganda socialista e então cunharam-se termos como “Red
Scare” e “Macartismo”, numa tentativa deliberada de mover a opinião pública e
blindar os comunistas infiltrados em postos de relevo da sociedade e do
governo. Vocês escutarão também a tentativa de enquadramento da exposição de
agentes como sendo caça às bruxas, uma expressão conveniente, porque Friedan
poderia bem ser denominada de bruxa.
Sobre os impactos da reação às
atividades comunistas, também chamadas na época de atividades antiamericanas,
Horowitz escreve: “Desejo destacar o dano
que o macartismo causou aos movimentos sociais progressistas nas décadas de
1940 e início de 1950, e especialmente ao feminismo, que ele forçou à
clandestinidade, mas não conseguiu destruir.”[4]
Então, de militante socialista a
ativista passa a ser um a dona de casa com cara de sonsa, com medo da reação
anticomunista impulsionada pelas forças conservadoras dos anos 50 e 60,
considerando que uma reação anti-revolucionária razoavelmente esclarecida constitui
ameaça tanto ao espectro comunista quanto ao feminista, pois estes elementos
trabalham conjuntamente.
Friedan passou a ocultar a sua
prévia atividade socialista, continuando o trabalho sutil de subversão da
sociedade norte-americana em termos de direitos civis, ela se colocou na
posição de mera dona de casa que colocava em seus escritos observações sobre a
situação das mulheres. Ao invés da defesa ativa dos socialistas, ela acabou por
contribuir para a causa de outra forma, simplesmente atacando as bases da
sociedade existente, fragilizando-a e facilitando o trabalho dos
revolucionários.
Exercendo o trabalho crítico
contra o conservadorismo norte-americano, automaticamente as hostes feministas se
beneficiariam e, com elas, o complexo socialista ao qual elas pertencem.
Ela atacou a ideia da dona de
casa que se realiza em seus afazeres domésticos, tratar-se-ia de modelo
feminino cunhado pela sociedade de consumo e funcional ao sistema capitalista
do pós-guerra e, com ele, essencial à manutenção da ordem social conservadora.
Em debates, propugnaria pelo
aborto, liberação sexual e divórcio livre, em contraponto aos religiosos que
condenavam tais pautas. O desencorajamento social às mães solteiras também era
interpretado como preconceito e hostilidade à liberdade feminina, pois mães
solteiras seriam aquelas que teriam quebrado “A Mística Feminina” da boa
esposa.
O que é a Mística Feminina?
Trata-se da imagem confeccionada pela sociedade burguesa de maneira a limitar
as mulheres a papéis fixos, convenientes ao patriarcalismo, impedindo-as de
desenvolver todas as suas potencialidades humanas, que estão para além do lar
doméstico. A mística feminina seria a narrativa usada para encapsular a mulher
conforme os interesses masculinos, o movimento de libertação feminina é a
destruição disso que ela denomina de “mística feminina”.
Horowitz alude ao fato de que os
movimentos sociais e seus líderes não surgem do nada, antes possuem uma
história responsável por modelar os seus destinos. Uma das características dos
movimentos internacionalistas é o intercâmbio de experiências, os frutos da
revolução de 1917 da Rússia foram aplaudidos pelas integrantes da “segunda
onda”, nessa linha de raciocínio, Augusto Zimmermann escreve que:
“(...) a
desintegração da família, facilitada pelo Código Soviético sobre Casamento e
Família, transformou o divórcio em algo fácil e acessível. O resultado foi um
enorme aumento de casamentos ocasionais e a mais alta taxa de divórcios do
mundo. O resultado das políticas antimatrimônio na União Soviética foi um
aumento dramático no número de lares desfeitos e de abortos. Em 1934, somente
em Moscou, houve 57.000 nascimentos vivos em comparação com 154.000 abortos.
Relata-se que um grande número de mulheres morreu em decorrência dessas interrupções
da gravidez”. (...) “Friedan apoiou essas políticas soviéticas, pois percebia a
família tradicional como o maior obstáculo à socialização das crianças”.[5]
Entre o feminismo liberal e o
feminismo marxista não há uma oposição, mas um jogo de cena ou, melhor, uma
orquestra, cada qual toca o seu instrumento a fim de produzir a melodia de
acordo com os tons mais adequados para cada ambiente. Friedan presta tributo à
obra de Kollontai e, juntas, marcam o alvo no conservadorismo de suas
respectivas sociedades. Zimmermann assevera:
Como observa o
historiador britânico Orlando Figes: a família foi a primeira arena na qual os
bolcheviques travaram a luta. Na década de 1920, eles tomaram como artigo de fé
que a “família burguesa” era socialmente nociva: era introvertida e
conservadora, um reduto de religião, superstição, ignorância e preconceito;
fomentava o egoísmo e a avidez material, e oprimia mulheres e crianças. Os
bolcheviques esperavam que a família desaparecesse à medida que a Rússia
soviética se desenvolvesse em um sistema plenamente socialista, no qual o
Estado assumisse a responsabilidade por todas as funções domésticas básicas… O
casamento patriarcal, com sua moral sexual associada, desapareceria — para ser
substituído, acreditavam os radicais, por “uniões livres de amor”.
Ironicamente, diante das uniões
matrimoniais de sua época, a Friedan advogou que as mulheres abandonassem seus
maridos e seguissem o seu próprio caminho, por assim dizer. Esse fato é
erroneamente considerado para traçar equivalências entre as feministas, de um
lado, e os masculinistas, de outro.
A pergunta que fazem é: se as
correntes feministas buscam destruir os laços matrimoniais e nutrem
hostilidades com relação ao casamento, separando as mulheres da ambição de
formarem uniões sólidas e autênticas, então os antifeministas, ao se
posicionarem contra o casamento, também não estariam fazendo o mesmo? A
resposta se encontra no contraste com a frequência na qual o feminismo atua.
Quando o feminismo se espalha em
determinada sociedade, ele busca conspurcar os institutos e atua de maneira a
produzir entropia no meio em que é introduzido, observa a possibilidade de
relações estáveis e busca introduzir o divórcio, havendo divisão de tarefas
entre ambos os sexos, ele prolonga o trabalho socialista de luta de classes e o
aplica às relações sexuais para enquadrar tais relações como exploratórias, sua
principal fonte de incômodo é que as relações se encontram harmonizadas
conforme as leis naturais (as “configurações de fábrica”) e as leis morais
(surgidas da convivência, tradição e concepção de justiça), e então atua para
desafiar os padrões e promover a quebra dessas estruturas ordenadas, em suma, a
frequência desse movimento é
revolucionária.
Por outro lado, a fonte de
incômodo provocado nos antifeministas provêm justamente do desalinho, do fato
de se perceber que os modelos familiares existentes não são modelos autênticos,
mas gambiarras. Se houve consolidação dos pontos defendidos pelas militantes
socialistas dentro do conceito jurídico de casamento, é porque de matrimônio
não mais se trata, ele se transmutou em outra coisa e aceitá-lo implicaria em
aceitar também os seus pressupostos, que no final das contas são
antifamiliares. Os antifeministas fazem uma leitura geral das relações sexuais,
amorosas e matrimoniais, complementam com as suas experiências particulares, em
seguida extraem uma conclusão que se manifesta na forma de reação a estado de
coisas entrópico, a postura antifeminista é necessariamente reacionária. Não só o é, como será universalmente
reconhecida como tal pelos partidários do autonomeado progressismo.
Não confundindo com David
Horowitz[6],
que também dissertou sobre o passado comunista de Friedan, Daniel Horowitz
(este é outro autor) sustentou em seu livro que o feminismo de Friedan ia muito
além da mera experiência de dona de casa num subúrbio dos Estados Unidos e que,
para melhor compreendê-la, era necessário rastrear suas atividades até os
movimentos de classe que orbitavam o esquerdismo do pós-guerra[7].
Ela tenta fazer parecer que o
desnudamento de uma alegada Mística Feminina decorreu da sua experiência como
esposa e dona de casa, mas basta analisar a sua biografia para constatar os
fatores que formaram a sua mentalidade, sua passagem pelo sistema educacional
já fortemente influenciado por ideólogos e a atuação profissional comprometida
com as pautas socialistas constituíram etapas comuns à formação de um modelo
feminino que erroneamente considerava o casamento uma fonte de opressão
feminina, porque a realidade do quadro era que esse tipo de mulher já era
imprestável para o matrimônio. Então o problema não era a formatação do
casamento naquela época, mas sim que os queixumes contra a mística feminina
(que é uma fabricação feita com propósitos retóricos), surgiam de uma mulher
imprestável para casamento. Friedan contraiu matrimônio por acidente, se tornou
esposa por um azar e virou mãe por uma tragédia, deveria ter permanecido
largada no canto ou, caso mantivesse namoro, ter sido largada imediatamente
após o seu parceiro notar com que tipo de mentalidade estava lidando.
Friedan começa o seu livro
dizendo haver um problema sem nome, que existe uma questão feminina que precisava
ser explorada e que importava a todos, sendo de relevância para o sexo em
geral. Na verdade, ela estava apenas projetando angústias de uma dona de casa
complexada, uma fêmea estragada para manter relacionamentos saudáveis. Sua
mentalidade era uma anomalia na época, mas com o passar dos anos, quase como
feitiço, a bruxaria se espalhou e a anomalia se tornou regra.
Em questão de influência, a
publicação de Friedan funcionou como uma bomba psicológica que alterou o debate
da questão sexual nos Estados Unidos durante a metade do século XX[8],
muitos dos pontos por ela levantados se incorporaram permanentemente na
retórica revolucionária. Reproduzindo esse mesmo modelo, o resultado é uma
geração de mulheres estragadas para relacionamento, tanto quanto a própria
Friedan, a bruxa, era.
[1]Friedan and feminism's long links with the
fight for wider equality. https://www.theguardian.com/world/2013/jan/18/friedan-feminism-fight-for-equality
[2] Tradução livre de KEYWIKI. Betty Friedan. https://keywiki.org/Betty_Friedan
[3]
BOUCHER, Joanne. Betty Friedan and the Radical Past of Liberal Feminism. https://archive.newpol.org/issue35/boucher35.htm#r11
[4]
Idem.
[5] Tradução livre de ZIMMERMANN, Augusto. Assessing the destructive impact of ‘Stalinist feminism’. https://www.mercatornet.com/assessing_the_destructive_impact_of_stalinist_feminism
[6]HOROWITZ, David. Betty Friedan's secret
Communist past.. https://writing.upenn.edu/~afilreis/50s/friedan-per-horowitz.html
[7]
HOROWITZ, Daniel. Betty Friedan and the
making of The feminine mystique. 1998. IX
[8] Idem.
P. 3
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