Tendo surgido nos idos de 2018, o
cidadão Sandro inaugurou seu
canal falando das dificuldades que a modernidade trouxe para as relações entre
homens e mulheres, questionando, de
maneira muito perspicaz, até que ponto o casamento, esse pacto
entre os dois sexos, poderia ser
considerado uma instituição viável em condições saudáveis.
“Que isso, mulher! Me respeita um
pouco!”, dizia ele, simulando a maneira
como um homem comum se portaria ao chegar em casa, no final de um dia de
trabalho, e deparar-se com sua matrona infectada pela porcaria mental
feminista.
Logo mais, relatava a sua
tentativa de dissuadir jovens rapazes de serem fisgados na teia de Enzos e
Valentinas, momento no qual soltou o seu famoso “quer se lascar, se lasque”. Indo mais adiante, passou a colidir com as
análises deficientes daqueles que deveriam ocupar a frente de combate do feminismo,
foi aí que começou a entrar em discordâncias pontuais com figuras do ramo
direitista e conservador, sem ainda perder a sanidade e senso de proporção do
cenário geral da política e da questão dos sexos, tema de seu canal.
“Falou”, “Dizia”, “relatou”,
“defendia”. Esses termos referentes a uma personalidade que já teria passado
não pretendem carregar o tom de necrológio, afinal de contas, recuos são mais
do que adequados quando a situação exige. O sujeito continua vivo. Aliás, não
só continua vivo como o seu canal foi apenas ocultado, podendo ser reativado a
qualquer momento, como fez no passado, conservando o mesmo número de inscrições
que, quando verifiquei meses atrás, era algo em torno de 190 mil.
Como saber se um canal foi
deletado ou simplesmente privado (congelado e guardado)? Vá até o seu histórico
de comentários feitos no canal pesquisado, embora não seja possível assistir
aos vídeos, o Youtube irá indicar se o vídeo foi excluído ou se está privado.
Se a plataforma indicar que o vídeo está privado e não excluído, então o canal
não foi deletado. O vídeo continua existente, embora indisponível. Simples.
Até porque seria muito
surpreendente concluir que ele simplesmente abriria mão de 190 mil inscritos
assim, sem mais nem menos, já que se mostrava fissurado, em diversas
oportunidades com a quantidade de inscrições. Em dado momento, chegou a fazer
um desabafo, mais ou menos nos seguintes termos: “não dá, depois do que
aconteceu ontem, não dá para ficar mais no youtube por muito tempo”.
E falando assim, o jovem que o
assiste chega se levantar da cadeira, querendo saber: “o que será que
aconteceu, Don Sandro? Diga!”. A polícia política foi na tua casa? Você foi
preso e censurado como os patriotas, vendendo algodão doce? Você foi acusado de
tentar derrubar o Estado com um pedaço de batom ou com palavras em uma
transmissão de internet?
E então ele respondeu (não me
recordo do número exato): “O Youtube me tirou trinta inscritos!”.
Enfim...
Massa crítica
O conteúdo reunido em vídeos pode
ser apagado com um simples clique da plataforma, e aí toda aquela produção de
anos é então jogada no buraco negro, com o público recorrendo a reupadores de
conteúdo aqui e ali, que se importaram o suficiente para fazer o download e
disseminar os vídeos da pessoa em outras plataformas ou tiveram espaço no HD
para guardá-los (o que dificilmente será feito com um canal inteiro). Com
canais grandes, é crível que o conteúdo preservado possa ser algo próximo da
integralidade, porque nesse caso são vários os seguidores e altas as chances de
que os vídeos tenham sido salvos.
Os conteúdos surgidos a partir de
2018 já pertenciam a uma nova geração de antifeministas, erigida sob os
escombros dos blogs, artigos e livros das comunidades anteriores, como as de
Pick Up Artist, Real, Blog do doutrinador, Nessahan Alita, entre outras. Esse
material permanece disponível até a presente data, por obedecer àquilo que um
antigo ditado latino afirma: as palavras voam, a escrita permanece.
O cidadão Sandro seguirá, então,
sendo essa figura folclórica dentro do nicho, a quem muitos continuarão
atribuindo o título de padrinho, fazendo emanar o poder da ausência mencionado
entre as 48 Leis do Poder. Entretanto, ao insistir em reiterar frequentemente o
avanço e o domínio do sistema rosa, ele acabou se convertendo em uma espécie de
canal de notícias masculinas. Notícias essas que levavam uma parcela do público
a ficar enfadada, queixando-se e dizendo: “Lá vem o Sandro falando a mesma
coisa”; enquanto outra parcela, formada por convertidos, aplaudia e permanecia
consciente daquilo que estava sendo dito.
A divorciada Suplicy e o solteirão antifeminista
Qual é o papel que o cidadão
Sandro desempenharia entre os homens? Não é o de líder, nem de guru ou guia.
Nas décadas passadas a Marta
Suplicy tinha um programa de televisão muito popular entre as mulheres. Ela
começou, paulatinamente, a disseminar o vírus feminista com esse programa que
visava, na aparência, “discutir problemas femininos”. E aí começaram a pipocar
(claro que junto com outras iniciativas), pautas estranhas. Uma sexualização
das mulheres acima do normal, digo para além das prostitutas de fato, para as
mulheres normais, esposas, donas de casa, cuja futilidade encontrava na figura
de Suplicy a mulher de classe alta que merecesse ser imitada pelas demais (se
ela pensa assim, então esse é o progresso, é isso que eu quero). O sociólogo
Gabriel Tarde afirmava que o ser humano tem essa tendência da imitação.
Quando na posição de ministra do
turismo, ela ficou famosa pela frase “relaxa e goza”[1],
nada mais do que uma ressonância da liberalização dos comportamentos e do
desgarramento da mulher dos papéis de fidelidade que um laço conjugal demanda.
Ao trazer fofocas de celebridade
(a audiência da vara de Família do Wesley Safadão, a cantora sertaneja tal com
o marido corno manso, o jogador de futebol sicrano que se casou com a
mariazinha, etc...), misturado com notícias de lei, ele fazia numa escala menor
aquilo que os programas populares, voltados às mulheres, faziam lá no passado,
com a diferença de que, se por um lado a Suplicy induzia e instigava a ideologização
das fêmeas, o Sandro remexia o esterco e desmontava as anomalias do tempo
provocadas por essa mesma onda.
É o sujeito então que, em
circunstâncias normais de temperatura e pressão, estaria em programas como
superpop, casos de família, entre outros, debatendo com mulheres histéricas que
se queixam contra os maridos. Porém, dada a gravidade do momento, ele próprio
deve ter recusado exposição pública para além do seu canal totalmente
controlado, afinal de contas me recuso a acreditar que não tenha sido chamado
para podcasts, entrevistas e programas. Logo, pode-se constatar que, além da
perda da base moral de seu discurso, ele se submeteu a uma espécie de
isolamento e se manteve na zona de conforto, comportamento incompatível com
aquele que deseja popularizar a sua mensagem.
Os apelos para a “união”
Saí pesquisando a esmo, no
YouTube, por vídeos que comentassem a autocensura do cidadão Sandro. Em um
deles, a pessoa reclamava que na dita esfera, e nas bolhas, havia muita
ingratidão e inveja. Além disso, o rapaz mencionava também que havia muita
“desunião”.
Ao que eu pergunto, união para
quê e com base em quê? As figuras mais proeminentes descartam, de imediato,
qualquer espécie de atuação política ou associativa, por vezes condenando até
aqueles que mostram o rosto e que demonstram certa ambição política. Sendo,
assim, descartada a ação, pode continuar cada um no seu canto, sem problema
nenhum.
O sociólogo Pitirim Sorokim nos
apresenta alguns pilares sobre o que torna possível a união em grupo. A palavra
sociedade decorre da palavra “sócio”, que, por sua vez, implica num conjunto de
indivíduos visando um bem comum. Um fenômeno sociocultural depende de: 1) Seres
humanos; 2) Significados, valores e normas; 3) Ações externas e fenômenos
materiais[2].
A esfera M dispõe apenas do primeiro elemento; o terceiro é vacilante, enquanto
o segundo (referente aos valores e às normas) foi erodido ao longo do tempo.
Mas como assim erodido ao longo
do tempo? Retomando um pouco o argumento, afirmei que o cidadão Sandro havia
entrado em rota de colisão com aquelas personalidades que, embora não fossem
esquerdistas, demonstravam fortes características manginas e não combatiam o
feminismo a contento. Ao perceber a persistente incapacidade da direita de
combater o feminismo, ele rompeu com essa base e se desgarrou de seus
fundamentos morais.
Restou, então, apenas a pauta
sexista, fundamentada na questão de classe. Sandro passou a ignorar outros
problemas gravíssimos e, ao fazê-lo, colocou-se em um patamar inferior ao dos
próprios conservadores que criticava.
Havia um vídeo logo no início do
canal dele em que ele comenta as dificuldades de um masculinista entrar na
política, porque o eleitorado não estava habituado a essas bandeiras, daí ele
lamentava, nos seguintes termos: "nem tudo é como a gente gostaria que
fosse". Ou seja, ele desejaria alguém "dos homens" no Congresso
Nacional, provavelmente pensando nele próprio. Ora, tratava-se de uma pretensão
legítima e naquela altura, ainda que sua plataforma fosse impopular, mereceria
um voto. Mas isso naquela altura, nos recentes anos ele não mereceria ser
eleito para nada.
Fazendo um apanhado, para nunca
mais ter de tratar do caso novamente, o que se pode concluir a partir do caso
Sandro? Tem-se uma personalidade que inaugurou o seu canal demonstrando que
conhecia do assunto e estava alerta com relação aos problemas da época, não
vejo problemas grandes entre os vídeos entre 2018 e 2020. Após essa data, contudo,
tal como foi para o mundo, ingressou num ponto de inflexão e isso comprometeu a
qualidade do seu raciocínio. Essa separação entre o Sandro que começou o canal
com aquele outro que terminou é para não ter de jogar o bebê fora com a água do
banho, exatamente como o raciocínio imbecil dele própria, quando se absteve de
esclarecer aos seus inscritos sobre a necessidade de se adotar uma postura
ferrenha e virulentamente antiesquerdista e anticomunista, sempre, em todos os
momentos e escolhas.
Ironicamente, estamos falando de
um policial que assistiu ao próprio país ser tomado pela maior quadrilha do
continente, aliada ao narcotráfico e vinculada a movimentos de esquerda,
responsáveis pela construção de um complexo de censura articulado por ONGs
integradas que, em última instância, apertarão o cerco contra os homens e os
antifeministas.
Eis as razões pelas quais a
“aposentadoria digital” do referido cidadão dispensa réquiem, drama ou choro. Era
um canal como qualquer outro.
Portanto, se ele pretende deixar
o cenário como uma espécie de figura que “combateu o bom combate”, está enganado.
Sumiu. Privou-se. Ocultou-se para
se salvar do cintaralho da censura que ELE ajudou a consolidar quando defendeu abstenção,
indiferença e incentivou que os homens fizessem o mesmo. Uma massa de toupeiras
indiferentes a crimes, assassinatos, tráfico, censura, que continuarão chorando
porque o sistema totalitário rosa manobra o aparato estatal, potencializado
pelo controle direto que dele gozam por meio de seus agentes.
O cidadão Sandro já foi algo, mas
já não era mais quando resolveu sair do palco. Que vá e não volte, já espalhou
confusão demais.
Nenhuma homenagem.
Quem sai, vai. Quem fica, dança.
[2]
SOROKIN, Pitirim. Sociedade, Cultura e
Personalidade. Vol 1. Editora Globo. Porto Alegre, 1968. P. 61.

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