domingo, 1 de novembro de 2026

Canal Don Sandro era um canal "como qualquer outro", parem de drama e de choro

 


Tendo surgido nos idos de 2018, o cidadão Sandro inaugurou seu canal falando das dificuldades que a modernidade trouxe para as relações entre homens e mulheres, questionando, de maneira muito perspicaz, até que ponto o casamento, esse pacto entre os dois sexos, poderia ser considerado uma instituição viável em condições saudáveis.

“Que isso, mulher! Me respeita um pouco!”, dizia ele, simulando a maneira como um homem comum se portaria ao chegar em casa, no final de um dia de trabalho, e deparar-se com sua matrona infectada pela porcaria mental feminista.

Logo mais, relatava a sua tentativa de dissuadir jovens rapazes de serem fisgados na teia de Enzos e Valentinas, momento no qual soltou o seu famoso “quer se lascar, se lasque”.  Indo mais adiante, passou a colidir com as análises deficientes daqueles que deveriam ocupar a frente de combate do feminismo, foi aí que começou a entrar em discordâncias pontuais com figuras do ramo direitista e conservador, sem ainda perder a sanidade e senso de proporção do cenário geral da política e da questão dos sexos, tema de seu canal.

“Falou”, “Dizia”, “relatou”, “defendia”. Esses termos referentes a uma personalidade que já teria passado não pretendem carregar o tom de necrológio, afinal de contas, recuos são mais do que adequados quando a situação exige. O sujeito continua vivo. Aliás, não só continua vivo como o seu canal foi apenas ocultado, podendo ser reativado a qualquer momento, como fez no passado, conservando o mesmo número de inscrições que, quando verifiquei meses atrás, era algo em torno de 190 mil.

Como saber se um canal foi deletado ou simplesmente privado (congelado e guardado)? Vá até o seu histórico de comentários feitos no canal pesquisado, embora não seja possível assistir aos vídeos, o Youtube irá indicar se o vídeo foi excluído ou se está privado. Se a plataforma indicar que o vídeo está privado e não excluído, então o canal não foi deletado. O vídeo continua existente, embora indisponível. Simples.

Até porque seria muito surpreendente concluir que ele simplesmente abriria mão de 190 mil inscritos assim, sem mais nem menos, já que se mostrava fissurado, em diversas oportunidades com a quantidade de inscrições. Em dado momento, chegou a fazer um desabafo, mais ou menos nos seguintes termos: “não dá, depois do que aconteceu ontem, não dá para ficar mais no youtube por muito tempo”.

E falando assim, o jovem que o assiste chega se levantar da cadeira, querendo saber: “o que será que aconteceu, Don Sandro? Diga!”. A polícia política foi na tua casa? Você foi preso e censurado como os patriotas, vendendo algodão doce? Você foi acusado de tentar derrubar o Estado com um pedaço de batom ou com palavras em uma transmissão de internet?

E então ele respondeu (não me recordo do número exato): “O Youtube me tirou trinta inscritos!”.

Enfim...

Massa crítica

O conteúdo reunido em vídeos pode ser apagado com um simples clique da plataforma, e aí toda aquela produção de anos é então jogada no buraco negro, com o público recorrendo a reupadores de conteúdo aqui e ali, que se importaram o suficiente para fazer o download e disseminar os vídeos da pessoa em outras plataformas ou tiveram espaço no HD para guardá-los (o que dificilmente será feito com um canal inteiro). Com canais grandes, é crível que o conteúdo preservado possa ser algo próximo da integralidade, porque nesse caso são vários os seguidores e altas as chances de que os vídeos tenham sido salvos.  

Os conteúdos surgidos a partir de 2018 já pertenciam a uma nova geração de antifeministas, erigida sob os escombros dos blogs, artigos e livros das comunidades anteriores, como as de Pick Up Artist, Real, Blog do doutrinador, Nessahan Alita, entre outras. Esse material permanece disponível até a presente data, por obedecer àquilo que um antigo ditado latino afirma: as palavras voam, a escrita permanece.

O cidadão Sandro seguirá, então, sendo essa figura folclórica dentro do nicho, a quem muitos continuarão atribuindo o título de padrinho, fazendo emanar o poder da ausência mencionado entre as 48 Leis do Poder. Entretanto, ao insistir em reiterar frequentemente o avanço e o domínio do sistema rosa, ele acabou se convertendo em uma espécie de canal de notícias masculinas. Notícias essas que levavam uma parcela do público a ficar enfadada, queixando-se e dizendo: “Lá vem o Sandro falando a mesma coisa”; enquanto outra parcela, formada por convertidos, aplaudia e permanecia consciente daquilo que estava sendo dito.

A divorciada Suplicy e o solteirão antifeminista

Qual é o papel que o cidadão Sandro desempenharia entre os homens? Não é o de líder, nem de guru ou guia.

Nas décadas passadas a Marta Suplicy tinha um programa de televisão muito popular entre as mulheres. Ela começou, paulatinamente, a disseminar o vírus feminista com esse programa que visava, na aparência, “discutir problemas femininos”. E aí começaram a pipocar (claro que junto com outras iniciativas), pautas estranhas. Uma sexualização das mulheres acima do normal, digo para além das prostitutas de fato, para as mulheres normais, esposas, donas de casa, cuja futilidade encontrava na figura de Suplicy a mulher de classe alta que merecesse ser imitada pelas demais (se ela pensa assim, então esse é o progresso, é isso que eu quero). O sociólogo Gabriel Tarde afirmava que o ser humano tem essa tendência da imitação.

Quando na posição de ministra do turismo, ela ficou famosa pela frase “relaxa e goza”[1], nada mais do que uma ressonância da liberalização dos comportamentos e do desgarramento da mulher dos papéis de fidelidade que um laço conjugal demanda.

Ao trazer fofocas de celebridade (a audiência da vara de Família do Wesley Safadão, a cantora sertaneja tal com o marido corno manso, o jogador de futebol sicrano que se casou com a mariazinha, etc...), misturado com notícias de lei, ele fazia numa escala menor aquilo que os programas populares, voltados às mulheres, faziam lá no passado, com a diferença de que, se por um lado a Suplicy induzia e instigava a ideologização das fêmeas, o Sandro remexia o esterco e desmontava as anomalias do tempo provocadas por essa mesma onda.

É o sujeito então que, em circunstâncias normais de temperatura e pressão, estaria em programas como superpop, casos de família, entre outros, debatendo com mulheres histéricas que se queixam contra os maridos. Porém, dada a gravidade do momento, ele próprio deve ter recusado exposição pública para além do seu canal totalmente controlado, afinal de contas me recuso a acreditar que não tenha sido chamado para podcasts, entrevistas e programas. Logo, pode-se constatar que, além da perda da base moral de seu discurso, ele se submeteu a uma espécie de isolamento e se manteve na zona de conforto, comportamento incompatível com aquele que deseja popularizar a sua mensagem.

Os apelos para a “união”

Saí pesquisando a esmo, no YouTube, por vídeos que comentassem a autocensura do cidadão Sandro. Em um deles, a pessoa reclamava que na dita esfera, e nas bolhas, havia muita ingratidão e inveja. Além disso, o rapaz mencionava também que havia muita “desunião”.

Ao que eu pergunto, união para quê e com base em quê? As figuras mais proeminentes descartam, de imediato, qualquer espécie de atuação política ou associativa, por vezes condenando até aqueles que mostram o rosto e que demonstram certa ambição política. Sendo, assim, descartada a ação, pode continuar cada um no seu canto, sem problema nenhum. 

O sociólogo Pitirim Sorokim nos apresenta alguns pilares sobre o que torna possível a união em grupo. A palavra sociedade decorre da palavra “sócio”, que, por sua vez, implica num conjunto de indivíduos visando um bem comum. Um fenômeno sociocultural depende de: 1) Seres humanos; 2) Significados, valores e normas; 3) Ações externas e fenômenos materiais[2]. A esfera M dispõe apenas do primeiro elemento; o terceiro é vacilante, enquanto o segundo (referente aos valores e às normas) foi erodido ao longo do tempo.

Mas como assim erodido ao longo do tempo? Retomando um pouco o argumento, afirmei que o cidadão Sandro havia entrado em rota de colisão com aquelas personalidades que, embora não fossem esquerdistas, demonstravam fortes características manginas e não combatiam o feminismo a contento. Ao perceber a persistente incapacidade da direita de combater o feminismo, ele rompeu com essa base e se desgarrou de seus fundamentos morais.

Restou, então, apenas a pauta sexista, fundamentada na questão de classe. Sandro passou a ignorar outros problemas gravíssimos e, ao fazê-lo, colocou-se em um patamar inferior ao dos próprios conservadores que criticava.

Havia um vídeo logo no início do canal dele em que ele comenta as dificuldades de um masculinista entrar na política, porque o eleitorado não estava habituado a essas bandeiras, daí ele lamentava, nos seguintes termos: "nem tudo é como a gente gostaria que fosse". Ou seja, ele desejaria alguém "dos homens" no Congresso Nacional, provavelmente pensando nele próprio. Ora, tratava-se de uma pretensão legítima e naquela altura, ainda que sua plataforma fosse impopular, mereceria um voto. Mas isso naquela altura, nos recentes anos ele não mereceria ser eleito para nada.

Fazendo um apanhado, para nunca mais ter de tratar do caso novamente, o que se pode concluir a partir do caso Sandro? Tem-se uma personalidade que inaugurou o seu canal demonstrando que conhecia do assunto e estava alerta com relação aos problemas da época, não vejo problemas grandes entre os vídeos entre 2018 e 2020. Após essa data, contudo, tal como foi para o mundo, ingressou num ponto de inflexão e isso comprometeu a qualidade do seu raciocínio. Essa separação entre o Sandro que começou o canal com aquele outro que terminou é para não ter de jogar o bebê fora com a água do banho, exatamente como o raciocínio imbecil dele própria, quando se absteve de esclarecer aos seus inscritos sobre a necessidade de se adotar uma postura ferrenha e virulentamente antiesquerdista e anticomunista, sempre, em todos os momentos e escolhas.

Ironicamente, estamos falando de um policial que assistiu ao próprio país ser tomado pela maior quadrilha do continente, aliada ao narcotráfico e vinculada a movimentos de esquerda, responsáveis pela construção de um complexo de censura articulado por ONGs integradas que, em última instância, apertarão o cerco contra os homens e os antifeministas.

Eis as razões pelas quais a “aposentadoria digital” do referido cidadão dispensa réquiem, drama ou choro. Era um canal como qualquer outro.

Portanto, se ele pretende deixar o cenário como uma espécie de figura que “combateu o bom combate”, está enganado. 

Sumiu. Privou-se. Ocultou-se para se salvar do cintaralho da censura que ELE ajudou a consolidar quando defendeu abstenção, indiferença e incentivou que os homens fizessem o mesmo. Uma massa de toupeiras indiferentes a crimes, assassinatos, tráfico, censura, que continuarão chorando porque o sistema totalitário rosa manobra o aparato estatal, potencializado pelo controle direto que dele gozam por meio de seus agentes.

O cidadão Sandro já foi algo, mas já não era mais quando resolveu sair do palco. Que vá e não volte, já espalhou confusão demais.

Nenhuma homenagem.

Quem sai, vai. Quem fica, dança.

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